If you can't fly then run, if you can't run then walk, if you can't walk then crawl, but whatever you do you have to keep moving forward.” Martin Luther King
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Há memórias que começam com uma televisão a preto e branco.
Hoje, a morte de Laura Cardoso e Glória Menezes, duas das grandes senhoras da dramaturgia brasileira, trouxe-me uma memória que estava guardada há muitos anos.
Voltei à sala da Dona Profica, na Várzea, meu bairro. Ainda não tínhamos televisão em casa. E a Dona Profica era uma das poucas pessoas do bairro que tinha.
Uma televisão grande, a preto e branco, vinda de Lisboa, pousada sobre um móvel e, por cima, uma renda branca.
Às nove da noite, aquela sala deixava de ser apenas a sala da Dona Profica. Era a sala de quase todo o bairro. Juntávamo-nos para ver as telenovelas brasileiras.
Eu sentava-me encostado à minha mãe. E, quando chegavam as cenas dos beijinhos, ela tapava-me os olhos.
Enquanto a história corria no pequeno ecrã, havia outros cheiros e outras histórias naquela sala. O cheiro da “Bola”, uma espécie de berlinde, e da “Sarabudja”, que a Dona Profica fazia para ir ganhando a vida.
A Dona Profica, nos seus tempos livres, era enfermeira da Tabanka. Mas, à noite, transformava a sua casa numa espécie de sala de cinema comunitária, muito antes de falarmos em comunidade, partilha ou economia social.
E havia ainda o Sr. Hilário, que prestava, à sua maneira e sujeito, claro, ao seu gosto, um verdadeiro serviço público: distribuía o sinal da televisão por toda a cidade da Praia, antes da chegada da TVEC - a Televisão Experimental de Cabo Verde.
Hoje, olhando para trás, percebo que aquelas telenovelas eram muito mais do que novelas.
Eram janelas para o mundo.
Davam-nos personagens para admirar, histórias para sonhar, palavras novas, músicas, romances, dramas, gargalhadas e, sobretudo, a sensação de que existiam outros mundos para além daquele que conhecíamos.
Talvez por isso a partida de Laura Cardoso e Glória Menezes me tenha levado imediatamente àquela sala. Porque há artistas que não entram apenas na nossa televisão. Entram na nossa infância; entram nas nossas casas; entram na nossa memória.
E ficam. Pensamos que são imortais e, num certo, sentido sim.
A melhor homenagem que podemos fazer a estas duas grandes senhoras da cultura brasileira talvez seja simplesmente esta:
Obrigado.
Obrigado por tudo o que nos deram através daquele pequeno ecrã.
Por nos terem dado sonhos, fantasias, emoções e esperança.
E obrigado também à Dona Profica, que percebeu, muito antes de nós, que uma televisão podia ser muito mais do que um aparelho.
Podia ser uma forma de juntar uma comunidade.
Naquela sala, entre a renda branca, o preto e branco da televisão, o cheiro da “Bola” e da “Sarabudja”, aprendemos também uma coisa bonita sobre Cabo Verde: quando alguém tem alguma coisa para partilhar, muitas vezes abre simplesmente a porta de casa.
E, durante algumas horas, aquela casa passa a ser de todos nós.
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