domingo, 23 de agosto de 2026

ABÍLIO DUARTE - O APANHA-BOLAS DOS 20 ESCUDOS

Hoje lembrei-me deste episódio como forma de prestar homenagem a Abílio Duarte, primeiro Presidente da Assembleia Nacional, que faleceu a 20 de agosto de 1996. Esta fotografia ( com ajuda da AI) trouxe-me de volta uma memória bonita. É uma fotografia no então Clube de Ténis da Praia. Éramos crianças e o ténis fazia parte dos nossos dias. Quem é da Várzea sabe do que falo. Foi também ali que conheci, de uma forma muito particular, Abílio Duarte. Abílio era um apaixonado pelo ténis. Jogava quase sempre ao final da tarde e eu era, muitas vezes, o seu “apanha-bolas”. Os meus colegas não queriam ser apanha-bolas do Abílio. Havia uma razão muito simples: enquanto um cooperante pagava 100 escudos por uma hora de trabalho, Abílio Duarte não passava dos 20 escudos. 😄 Eu, pelo contrário, gostava de ser o apanha-bolas dele. Porque os 20 escudos eram apenas uma parte da história. Lembro-me de Abílio terminar o jogo todo suado, sempre vestido a rigor, de branco. Depois, tirava do estojo de ténis a sua carteira de moedas e ficava alguns segundos a escolher cuidadosamente a moeda certa.Nunca passava dos 20 escudos. Mas, para mim, havia uma compensação que não tinha preço: a conversa no final do jogo. Falávamos de Cabo Verde. Da nossa história. Da política. Do país que estávamos a construir.Abílio contava histórias e eu ouvia. Era ainda miúdo, mas aquelas conversas ficaram.E havia uma frase que ele me repetia, quase sempre como uma recomendação, quase como uma obrigação: “Tens de estudar para seres um homem com H grande e vires a contribuir para o nosso país”. Na altura, Abílio Duarte era o Presidente da Assembleia Nacional. Eu era apenas um miúdo que apanhava bolas de ténis. Hoje, tantos anos depois, percebo que aquelas conversas eram muito mais do que conversas. Eram pequenas aulas de cidadania, de história, de política e, sobretudo, de amor a Cabo Verde.Abílio Duarte foi um dos grandes construtores da República. Combatente da Liberdade da Pátria, primeiro Presidente da Assembleia Nacional e uma das figuras fundamentais da construção das instituições do Cabo Verde independente. Mas a memória que guardo dele não é apenas a do homem que ocupava uma das mais altas funções do Estado. É a imagem daquele homem no campo de ténis, vestido de branco, a guardar a raquete, a abrir a carteira de moedas e a procurar os 20 escudos. E depois, a conversa. Hoje sei que aqueles 20 escudos pagavam o meu trabalho. Mas a conversa era uma verdadeira aula. E talvez seja essa uma das maiores riquezas que algumas pessoas nos deixam: aquilo que nos ensinaram sem sequer percebermos, na altura, a dimensão do que estávamos a receber. Obrigado, Abílio. Pelas tardes de ténis. Pelas histórias. Pelas conversas. E, sobretudo, pelo conselho que nunca esqueci: “Estuda para seres um homem com H grande.” #CaboVerde #históriascompessoasdentro #abilioduarte Ver menos

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