As coisas que vivemos

1. Gabriel Garcia Marquez tem uma frase que eu gosto particularmente: “o que você viveu ninguém tira”. Quando soube da morte de Gabriel Garcia Marquez umas das primeiras coisas que me vieram à cabeça foi justamente esta frase e recuei no tempo em que estava a fazer a minha licenciatura. Nas férias de verão era habitual fazer uns “biscates” na Costa Leste dos Estados Unidos. Fabricar pentes era um dos meus “passatempos” de verão e costumo brincar, dizendo que uma das consequências desta experiência foi o aceleramento da minha calvície. Na primeira vez que fui fazer estes biscastes nos Estados Unidos fui obrigado a fazer uma escolha: já no final da minha estada só tinha pouco mais de 300 USD. O meu primo queria muito ir até Nova York e tentou convencer-me a ir com ele. Até então, eu nunca tinha colocado os pés em Nova York. Porém, queria muito comprar um casaco de pele, já que quando chegasse a Portugal íamos entrar no outono e não tinha nenhum casaco de jeito. Como o dinheiro não dava para fazer as duas coisas, entrei num confronto interno durante um ou dois dias. Acabei por ceder à parte material e fui comprar o bendito casaco. Ainda na loja, a dúvida perseguia-me. Não fui a Nova York com o meu primo. Regressei a Portugal, poucas semanas depois, vestido alegremente com o meu casaco. Em Lisboa, naquela noite, fui assaltado e a primeira coisa que me mandaram despir foi o meu casaco. Pensei nas horas que eu tive de trabalhar para comprar o meu casaco (pagavam-me 5 dólares à hora) e, claro, na cidade que nunca dorme. Conversando comigo durante e depois do assalto, torturei-me a mim próprio com a opção de ter comprado o casaco em vez de ter ido conhecer Nova York. Fiquei sem o casaco e sem a experiência de Nova York. Com este episódio aprendi uma grande lição, que Gabriel Garcia Marquez traduziu, de forma simples, na frase que comecei este artigo “o que você viveu ninguém tira”. As coisas materiais são efémeras e a qualquer momento podemos perde-las. O que nós vivemos ninguém nos rouba. Sempre que confrontado com esta dúvida, vou buscar esta frase de um dos mais vibrantes escritores do século XX, cuja vida lhe foi roubada na passada semana. Não li todos, mas todos os livros que eu li dele são um estímulo para que possamos viver na plenitude a vida.

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