Queijo suiço

Na primeira edição do Panazorean – Festival Internacional de Cinema sobre Migrações e Diálogo Intercultural –, organizado pela AIPA, exibimos um dos filmes mais polémicos sobre as migrações chamado “Voo especial”. Tivemos a oportunidade, graças ao apoio da embaixada da suíça, de ter a presença do realizador - Fernand Melgar - que durante a intervenção de apresentação do filme disse que o drama que o seu documentário retrata é o resultado “de uma vontade popular”. Por outras palavras, o centro de detenção e as atrocidades cometidas contra os mais elementares Direitos Humanos resultam de uma opção do povo suíço, sendo que o governo não mais fez do que materializá-la. O filme acompanha o quotidiano de imigrantes indocumentados detidos na prisão de Frambois, na região de Genebra, aguardando uma decisão judicial imprevisível, que tanto os pode libertar para retomar a sua vida normal como levar a um repatriamento forçado para os seus países de origem - cujo pior grau consiste num polémico “voo especial” que os trata como criminosos perigosos e já levou à morte de prisioneiros. Já agora quem quiser seguir o destino dos imigrantes repatriados da Suíça pode aceder ao site filmewww.volspecial.ch, onde através de um Web-documentário pode ver as tremendas injustiças que se cometem. Lembrei-me deste filme, a propósito da aprovação dos suíços (50,3%) do referendo que põem em causa a livre circulação dos cidadãos da União Europeia para a Suíça e da imposição de uma quota para a imigração. Na verdade, esta opção dos suíços não me espantou, pois se seguirmos com atenção o crescimento de um clima anti-imigração no país, do fortalecimento da extrema-direita, percebemos que era previsível este resultado que acarreta, a meu ver, um sério aviso aos líderes europeus por dois motivos: O primeiro é que a extrema-direita ganhou, com esta vitória do referendo na Suíça, mais combustível para as próximas eleições europeias, aumentando, por consequência, a sua margem de manobra junto dos eleitores. Isso significa que estamos na eminência de ter ¼ do Parlamento Europeu constituído por indivíduos e forças partidárias que acreditam e fomentam lógicas sociais que contrariam os mais elementares Direitos Humanos e que atacam um dos pilares essenciais da União Europeia (a livre circulação de pessoas). O segundo motivo alicerça-se na atual crise económica e social que tem afetado muitos países europeus e que as lideranças europeias não têm conseguido contrariar. Infelizmente, na prática, a lógica das parcerias funciona num contexto de um razoável equilíbrio entre os envolvidos. A partir do momento que se gera um forte desequilíbrio, o parceiro que está em melhores condições tenta roer a corda e, basicamente, foi isso que a Suíça fez. Alguns exemplos de desequilíbrios: o desemprego, em muitos países europeus situa-se acima dos 15%; na suíça o desemprego ronda os 3% - 3,4% para o conjunto da população e 2% para os suíços de origem –. Desde 2002, que os salários cresceram em média 0,6%, sendo que a economia suíça nunca parou de crescer acima da média europeia. Mas, vale a pena ver esta questão com muita frieza, no sentido de perceber como poderemos contrariar esta tendência suicida de ver os imigrantes ou, se quisermos, “ os outros” como a fonte de todos os problemas. O irónico disso é que ser imigrante não quer dizer que a pessoa fica automaticamente apta a defender o interesse de outros migrantes. Aliás, um emigrante português na Suíça admitiu que votou a favor do referendo porque entende que o país não pode acolher mais imigrantes. Este episódio remete-nos para uma outra dimensão do problema que perpassa a nossa condição de imigrante ou não. A questão que nós temos pela frente tem a ver com o modelo de sociedade que queremos viver: uma sociedade onde todos nós temos a liberdade de circular e viver, sem que isso coloque em causa os nossos direitos como cidadãos ou uma sociedade fechada sobre si própria, isto é, como um queijo suíço?

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