quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Um país ao contrário

Portugal é, nos dias que correm, uma nação ao contrário. Um país que, em vez de caminhar para potenciar uma maior redistribuição da riqueza e da coesão social tem, de forma voluntária, aumentado a diferença entre os ricos e os pobres e destruído os alicerces construídos ao longo destes quase 40 anos. Um país que quer potenciar a igualdade de oportunidades entre todos os seus membros, mas cujo governo entende que a melhor forma de o fazer é reduzir o salário de miséria dos que ainda têm trabalho, aumentaras horas de trabalho; desinvestir na educação e aumentar o desemprego. Em relação a este último ponto não me canso de repetir que um país onde uma parte significativa da sua população ativa quer vender a sua força de trabalho e não encontra no seu próprio país ninguém para o comprar(sendo por isso obrigado a emigrar), é um país que está ao contrário. Não tenhamos ilusão que, quando a emigração acontece num contexto de ausência de oportunidades é um fenómeno com uma dose muito grande de drama. No país e mesmo na região, cada vez é maior o número de jovens que estão a emigra e, em muitas circunstâncias, é uma emigração silenciosa. Este governo do PSP e CDS-PP já deveria estar na rua, quem ouve o primeiro e o vice-primeiro ministro fica com a sensação de que eles têm uma base legítima de atuação, mas não têm e nós assistimos serenos e tranquilos a destruição de um país. Até no campo da diplomacia Portugal é, também hoje, um país ao contrário. Em qualquer outro Estado, o Ministro de Negócios Estrangeiro é aquele governante que tem a difícil tarefa de fazer pontes, de reparar os erros e os excessos cometidos por outros governantes. Ou seja, é o género de “bombeiro de serviço” que com um grande sentido diplomático tenta resolver os incêndios ou os potenciais incêndios. Este governo do PSD e CDS-PP tem um Ministro de Negócios Estrangeiros que é um autêntico incendiário; vê vestígios do fogo e no lugar de meter lá água, despeja gasolina. Nesta confusão, para mim, temos situações conjunturais e estruturais que conjugadas entre elas, têm deteriorado as ligações entre os dois países e não podemos, de todo, ignorar o facto de que as coisas, pelo menos no plano político diplomático, também não estão nada bem. A situação estrutural tem a ver com o complexo colonial que ainda persiste nos diferentes setores dos dois países. Portugal, o colonizador, é hoje, um país teso e, por isso, tem de procurar e manter os seus parceiros comerciais; Angola, o colonizado, é hoje um dos países com maiores índices de crescimento económico em África e no mundo. O expectável é o que colonizado seja sempre o mais fraco em tudo e quando as coisas ficam ao contrário é preciso um grande jogo de cintura coletivo para conviver com esta perda. Angola, enquanto país africano, é visto por Portugal, como um “tipo bronco mais com muito dinheiro” e por isso que temos de engolir os seus desvarios. Mas o dinheiro não justifica tudo. Se o Presidente de Angola entende que, no âmbito de um discurso sobre o Estado de Nação, deve referir que as relações estratégicas com Portugal estão fortemente ameaçadas, o governo português não tinha de pedir desculpas da forma como pediu. Há uma coisa que se chama dignidade e não há dinheiro nenhum que deve compra-la. Existe uma dignidade coletiva e os políticos têm de saber defendê-la. A situação de Angola é mais complexa do que aparenta. É um país com enorme potencial, mas que cuja relação entre a economia e política é desconfortavelmente próxima e, onde a esmagadora maioria da população vive no limiar da pobreza. Não podemos cair na tentação de pensar que todo o indivíduo que vem de Angola é corrupto (como muitos pensam) mas também, não podemos cair no desespero de não avançar com investigações quando as suspeitas recaem sobre algum angolano. A isso chama-se relação horizontal entre dois países que tem um passado comum, mas que se não for gerido com um grande sentido de humildade, dignidade e de respeito mutuo, não chegamos lá.
Publicado no jornal " Açoriano Oriental", no dia 30.10.2013

Sem comentários:

Há memórias que começam com uma televisão a preto e branco. Hoje, a morte de Laura Cardoso e Glória Menezes, duas das grandes senhoras da d...