Um país ao contrário

Portugal é, nos dias que correm, uma nação ao contrário. Um país que, em vez de caminhar para potenciar uma maior redistribuição da riqueza e da coesão social tem, de forma voluntária, aumentado a diferença entre os ricos e os pobres e destruído os alicerces construídos ao longo destes quase 40 anos. Um país que quer potenciar a igualdade de oportunidades entre todos os seus membros, mas cujo governo entende que a melhor forma de o fazer é reduzir o salário de miséria dos que ainda têm trabalho, aumentaras horas de trabalho; desinvestir na educação e aumentar o desemprego. Em relação a este último ponto não me canso de repetir que um país onde uma parte significativa da sua população ativa quer vender a sua força de trabalho e não encontra no seu próprio país ninguém para o comprar(sendo por isso obrigado a emigrar), é um país que está ao contrário. Não tenhamos ilusão que, quando a emigração acontece num contexto de ausência de oportunidades é um fenómeno com uma dose muito grande de drama. No país e mesmo na região, cada vez é maior o número de jovens que estão a emigra e, em muitas circunstâncias, é uma emigração silenciosa. Este governo do PSP e CDS-PP já deveria estar na rua, quem ouve o primeiro e o vice-primeiro ministro fica com a sensação de que eles têm uma base legítima de atuação, mas não têm e nós assistimos serenos e tranquilos a destruição de um país. Até no campo da diplomacia Portugal é, também hoje, um país ao contrário. Em qualquer outro Estado, o Ministro de Negócios Estrangeiro é aquele governante que tem a difícil tarefa de fazer pontes, de reparar os erros e os excessos cometidos por outros governantes. Ou seja, é o género de “bombeiro de serviço” que com um grande sentido diplomático tenta resolver os incêndios ou os potenciais incêndios. Este governo do PSD e CDS-PP tem um Ministro de Negócios Estrangeiros que é um autêntico incendiário; vê vestígios do fogo e no lugar de meter lá água, despeja gasolina. Nesta confusão, para mim, temos situações conjunturais e estruturais que conjugadas entre elas, têm deteriorado as ligações entre os dois países e não podemos, de todo, ignorar o facto de que as coisas, pelo menos no plano político diplomático, também não estão nada bem. A situação estrutural tem a ver com o complexo colonial que ainda persiste nos diferentes setores dos dois países. Portugal, o colonizador, é hoje, um país teso e, por isso, tem de procurar e manter os seus parceiros comerciais; Angola, o colonizado, é hoje um dos países com maiores índices de crescimento económico em África e no mundo. O expectável é o que colonizado seja sempre o mais fraco em tudo e quando as coisas ficam ao contrário é preciso um grande jogo de cintura coletivo para conviver com esta perda. Angola, enquanto país africano, é visto por Portugal, como um “tipo bronco mais com muito dinheiro” e por isso que temos de engolir os seus desvarios. Mas o dinheiro não justifica tudo. Se o Presidente de Angola entende que, no âmbito de um discurso sobre o Estado de Nação, deve referir que as relações estratégicas com Portugal estão fortemente ameaçadas, o governo português não tinha de pedir desculpas da forma como pediu. Há uma coisa que se chama dignidade e não há dinheiro nenhum que deve compra-la. Existe uma dignidade coletiva e os políticos têm de saber defendê-la. A situação de Angola é mais complexa do que aparenta. É um país com enorme potencial, mas que cuja relação entre a economia e política é desconfortavelmente próxima e, onde a esmagadora maioria da população vive no limiar da pobreza. Não podemos cair na tentação de pensar que todo o indivíduo que vem de Angola é corrupto (como muitos pensam) mas também, não podemos cair no desespero de não avançar com investigações quando as suspeitas recaem sobre algum angolano. A isso chama-se relação horizontal entre dois países que tem um passado comum, mas que se não for gerido com um grande sentido de humildade, dignidade e de respeito mutuo, não chegamos lá.
Publicado no jornal " Açoriano Oriental", no dia 30.10.2013

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