If you can't fly then run, if you can't run then walk, if you can't walk then crawl, but whatever you do you have to keep moving forward.” Martin Luther King
sábado, 12 de outubro de 2013
Tabanka
No outro dia, convidaram-me para ir falar sobre a Tabanka. Com muita hesitação e depois (re)ler algumas coisas, acedi partilhar algumas notas soltas sobre a Tabanka. Enquanto fazia este exercício de aprendizagem, a minha memória viajou no tempo e reforçou a minha convicção da extraordinária riqueza cultural da Tabanka.
No segundo domingo, deste último Agosto, saí atrás de uma Tabanka. Apesar de ser a época da chuva, não havia nenhuma nuvem a acompanhar o azul do céu. Da minha casa ouvia-se, timidamente, o rifar dos tambores e som único dos búzios e da janela via-se, com maior nitidez, as cores quentes e garridas das várias personagens que iriam participar no cortejo.
Nasci e cresci no bairro da Várzea da Companhia. Uma larga maioria das pessoas conhece o bairro por três motivos e pela seguinte ordem de prioridade: o único cemitério da cidade fica situado no bairro da Várzea; nas épocas das chuvas, o meu bairro, derivada da sua localização era invadido por uma corrente de água; apesar da raridade da chuva, quando chovia, tenho a imagem da minha infância de ver indivíduos mais excêntricos a navegarem nas estreitas ruas da Várzea mas simpaticamente preenchidas com as caras de crianças que brincavam ao sabor da chuva.
Mas o bairro da várzea é também conhecido pela sua Tabanka. A par da Tabanka da Achada Grande, a Tabanka da Várzea é incontornável no contexto da ilha de Santiago e de Cabo Verde. Vim para este mundo depois da independência de Cabo Verde, e antes desta data, a Tabanka foi proibida várias vezes com o argumento de que constituía uma manifestação grosseira e ofensiva à moral pública.
Em miúdo integrei a tropa da Tabanka. Era tropa a brincar. Mas a Tabanka é isto mesmo: uma reprodução, em jeito de brincadeira e de sátira, à sociedade, desde suas estruturas sociais e das relações que se estabelecem entre os indivíduos. O comandante das tropas da Tabanka, era o Tchoy. O Tchoy era o responsável do Cemitério da Várzea.
Em miúdo chateava-me a conotação direta que os meus colegas teimavam em fazer da Várzea com o cemitério, o tal lugar de todos nós. Treinávamos uma vez por semana e quando a saída da Tabanka se aproximava, os treinos eram intensificados. Enquanto traço estas linhas, lembro-me da voz grossa de comando do Tchoy do tipo: “armas; baixar armas, esquerda volver”. Tínhamos as espingardas de madeira. Como o Tchoy é que era o comandante, ele decidiu que os treinos das tropas da Tabanka decorriam mesmo em frente ao cemitério e da janela do quarto dos meus pais era possível ver a fachada principal do cemitério. Lembro-me da D. Diminga Mana que, no dia da saída da Tabanka e à porta da sua casa, trocamos dois dedos de conversa sobre a Tabanka. Recordo, também, da D. Profica, entretanto, falecida. Uma verdadeira empreendedora e era muito conhecida como a enfermeira da Tabanka. Vestia-se rigorosamente de branco, com os seus sapatos brancos e estetoscópio. Na Tabanka era a enfermeira que, saltitando entre as pessoas que participavam no cortejo, fazia breves auscultações sobre o estado de saúde e receitava a devida medicação. Neste domingo, a enfermeira da Tabanka, enquanto agitava as ancas ao rifar dos tambores e pelo som único dos búzios, distribuía preservativos às pessoas que assistiam ao cortejo, num ambiente repleto de cores quentes e garridas das várias personagens.
É num outro bairro da cidade da Praia, Tira Chapéu, que residia o chefe máximo da Tabanka, o Rei da Tabanka: Sr. Simão. Disseram-me que já faleceu há muito tempo. Usava barba, e mesmo no seu quotidiano profissional, transmitia e respirava um ar monárquico. Hoje, o Rei da Tabanka é assegurado pelo Bidjo.
Uma manifestação que começou a ser uma forma de sátira social, transformou-se ao longo do tempo numa fortíssima e importante manifestação cultural e com uma notável ritualização como o roubo do santo e da bandeira a preparação da comida para todos os festeiros etc. Neste domingo, não faltou a feijoada para todos. Fiquei contente por saber deste esforço em manter e preservar a Tabanka. Qualquer povo deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para preservar as suas tradições e reforçar, por conseguinte, o seu olhar sobre o futuro.
Publicado no Jornal " Açoriano Oriental"
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