Tabanka

No outro dia, convidaram-me para ir falar sobre a Tabanka. Com muita hesitação e depois (re)ler algumas coisas, acedi partilhar algumas notas soltas sobre a Tabanka. Enquanto fazia este exercício de aprendizagem, a minha memória viajou no tempo e reforçou a minha convicção da extraordinária riqueza cultural da Tabanka. No segundo domingo, deste último Agosto, saí atrás de uma Tabanka. Apesar de ser a época da chuva, não havia nenhuma nuvem a acompanhar o azul do céu. Da minha casa ouvia-se, timidamente, o rifar dos tambores e som único dos búzios e da janela via-se, com maior nitidez, as cores quentes e garridas das várias personagens que iriam participar no cortejo. Nasci e cresci no bairro da Várzea da Companhia. Uma larga maioria das pessoas conhece o bairro por três motivos e pela seguinte ordem de prioridade: o único cemitério da cidade fica situado no bairro da Várzea; nas épocas das chuvas, o meu bairro, derivada da sua localização era invadido por uma corrente de água; apesar da raridade da chuva, quando chovia, tenho a imagem da minha infância de ver indivíduos mais excêntricos a navegarem nas estreitas ruas da Várzea mas simpaticamente preenchidas com as caras de crianças que brincavam ao sabor da chuva. Mas o bairro da várzea é também conhecido pela sua Tabanka. A par da Tabanka da Achada Grande, a Tabanka da Várzea é incontornável no contexto da ilha de Santiago e de Cabo Verde. Vim para este mundo depois da independência de Cabo Verde, e antes desta data, a Tabanka foi proibida várias vezes com o argumento de que constituía uma manifestação grosseira e ofensiva à moral pública. Em miúdo integrei a tropa da Tabanka. Era tropa a brincar. Mas a Tabanka é isto mesmo: uma reprodução, em jeito de brincadeira e de sátira, à sociedade, desde suas estruturas sociais e das relações que se estabelecem entre os indivíduos. O comandante das tropas da Tabanka, era o Tchoy. O Tchoy era o responsável do Cemitério da Várzea. Em miúdo chateava-me a conotação direta que os meus colegas teimavam em fazer da Várzea com o cemitério, o tal lugar de todos nós. Treinávamos uma vez por semana e quando a saída da Tabanka se aproximava, os treinos eram intensificados. Enquanto traço estas linhas, lembro-me da voz grossa de comando do Tchoy do tipo: “armas; baixar armas, esquerda volver”. Tínhamos as espingardas de madeira. Como o Tchoy é que era o comandante, ele decidiu que os treinos das tropas da Tabanka decorriam mesmo em frente ao cemitério e da janela do quarto dos meus pais era possível ver a fachada principal do cemitério. Lembro-me da D. Diminga Mana que, no dia da saída da Tabanka e à porta da sua casa, trocamos dois dedos de conversa sobre a Tabanka. Recordo, também, da D. Profica, entretanto, falecida. Uma verdadeira empreendedora e era muito conhecida como a enfermeira da Tabanka. Vestia-se rigorosamente de branco, com os seus sapatos brancos e estetoscópio. Na Tabanka era a enfermeira que, saltitando entre as pessoas que participavam no cortejo, fazia breves auscultações sobre o estado de saúde e receitava a devida medicação. Neste domingo, a enfermeira da Tabanka, enquanto agitava as ancas ao rifar dos tambores e pelo som único dos búzios, distribuía preservativos às pessoas que assistiam ao cortejo, num ambiente repleto de cores quentes e garridas das várias personagens. É num outro bairro da cidade da Praia, Tira Chapéu, que residia o chefe máximo da Tabanka, o Rei da Tabanka: Sr. Simão. Disseram-me que já faleceu há muito tempo. Usava barba, e mesmo no seu quotidiano profissional, transmitia e respirava um ar monárquico. Hoje, o Rei da Tabanka é assegurado pelo Bidjo. Uma manifestação que começou a ser uma forma de sátira social, transformou-se ao longo do tempo numa fortíssima e importante manifestação cultural e com uma notável ritualização como o roubo do santo e da bandeira a preparação da comida para todos os festeiros etc. Neste domingo, não faltou a feijoada para todos. Fiquei contente por saber deste esforço em manter e preservar a Tabanka. Qualquer povo deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para preservar as suas tradições e reforçar, por conseguinte, o seu olhar sobre o futuro. Publicado no Jornal " Açoriano Oriental"

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