Portugal unicolor




Simplesmente sento-me e deixo-me levar pela observação. A praça do Rossio é o meu local para esta introspeção aparentemente inconsequente e que esporadicamente é interrompida pela concentração de pombos. Observo turistas que, em passos lentos e curiosos, transmitem uma noção imediata de quererem descobrir ou confirmar algumas das coisas que lêem nos diferentes guias. Vejo, também, outras pessoas de diferentes cores: umas são imigrantes, outras apesar da pele escura e de cabelos carapinha, são tão portugueses como o D. Duarte. Perante este olhar aparentemente inconsequente, dou por mim a pensar que Portugal é, hoje, na sua essência um país com uma notável diversidade cultural e étnica. O interessante dessa diversidade é que não apresenta, curiosamente, grandes contrastes culturais, pelo menos, em comparação com outros países europeus em que a diversidade cultural gera uma grande tensão social e é apropriada, muitas vezes, como o ponto de ruptura entre as diferentes tendências políticas. Antes disso tinha estado numa livraria, também no Rossio, onde folheei o livro “Alfaiate lisboeta” de José Cabral. O livro que é sobre gentes e lugares, retrata, por isso, uma cidade tal como ela é: diversa. Este livro, como tantas outras coisas, ajuda-nos a reforçar a convicção da diversidade étnica e cultural que (re)constrói a  sociedade portuguesa. Ainda no Rossio, apercebo que os jornais desse dia trazem quase todos na primeira página, o Varela; o jogador, que deu um forte contributo para a permanência da equipa portuguesa no euro 2012, nasceu na Almada e é filho de pais cabo-verdianos. O desporto e o futebol, em particular, é um excelente indicador quando estamos a avaliar o grau da diversidade da sociedade portuguesa. Queremos que a seleção portuguesa ganhe; queremos que a seleção tenha os melhores sendo que a cor da pele, a pronúncia, o local de nascimento são completamente irrelevantes. Para além do Pepe (que se naturalizou português) a selecção portuguesa conta com mais dois jogadores que nasceram em Cabo Verde: Dani e Rolando.
Por isso, interrogo-me que país é esse que não consegue criar condições para que esta diversidade não seja assumida em outros sectores do seu quotidiano? Quando olhamos para outras esferas da sociedade portuguesa percebemos que nos é dado uma sociedade unicolor que contraria com o Portugal real. A política é o exemplo mais visível deste unicolor que é quebrado, curiosamente, pelo CDS-PP que tem na sua bancada parlamentar um deputado negro natural de Angola. Como o amor não tem, a priori, filtros de preconceito, os imigrantes, os descendentes e todos os que acreditam que a inclusão da diversidade é, também um indicador de desenvolvimento, resta-nos o consolo da mulher do primeiro-ministro ser natural da Guiné-Bissau. Brincadeira à parte, nos dois últimos relatórios sobre a integração dos imigrantes (Mipex) a vertente da participação política é referenciada como a área em que Portugal deverá fazer um maior esforço, enquanto dimensão importante de integração dos imigrantes e dos seus descendentes. Por outro lado, num estudo recentemente apresentando na Fundação Calouste Gulbenkian “Inquérito a Cidadãos Imigrantes. A experiência de integração dos imigrantes em 15 cidades” ficou claro que os imigrantes não almejam a representação política de forma ghetizada, ou seja, por uma questão de terem simplesmente um descendente ou natural de um país qualquer ou mesmo alguém de tem a mesma tonalidade da cor da pele. A questão não é por aí. Almejam isso porque quer dizer que a sociedade de que fazem parte cria condições para uma verdadeira integração e não querem sentir sub-representados. Quando um país não espelha a sua diversidade isso quer dizer que existe um filtro que deveria preocupar a todos.

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