Ninguém nos é estranho
"Ninguém, em verdade, viaja para uma ilha.
As ilhas existem dentro de nós, como um território sonhado, como em pedaço do
nosso passado que se soltou do tempo". A frase foi retirada do livro
"Pensageiro frequente" de Mia Couto. Fruto daqueles acasos, comecei a lê-lo justamente durante a minha viagem
para a mais pequena ilha dos Açores, em que quase a avistar o pequeno
aeroporto, deparei-me com esta confissão sobre a insularidade. De facto, no
Corvo, com os seus pouco mais de 400 habitantes, sentimos intensamente as
contradições do espírito insular, cuja expressão máxima é a obrigatoriedade da
permanência por imposição das condições meteorológicas. Sempre tive imensa curiosidade
em conhecer o Corvo. Queria conhecer o olhar das pessoas que diariamente fazem
vida neste espaço açoriano; sempre quis conversar para perceber o quão forte é
este sentimento insular que, até colocar cá os pés, julgava conhecer tão bem,
já que nasci num outro arquipélago, Cabo Verde. Quando o avião se vai embora,
somos invadidos por um estranho sentimento de orfandade que é logo quebrado,
também de forma estranha, por um sentimento instintivo de pertença a este
local. Mesmo chegando a uma ilha com 6, 5 km de comprimento e 4 km de largura,
quando estamos na companhia de uma mala, dificilmente saímos da tal compreensão
de que é necessário um transporte público ou alguém que vá ao nosso encontro.
Passados pouco minutos, ganho a boleia de uma jovem. Encontro, ainda no
aeroporto, Gonçalo Tocha, que com o filme da sua autoria “ Não é na Lua é na
Terra” tem projetado o Corvo e os Açores por outras bandas. Começa, neste
instante, um reconfortante sentimento de pertença e de aconchego que devia ser
obrigatório experimentar. Este aconchego é reforçado pelo andar nas ruas - muitas
ainda por acabar -, em o primeiro olhar de um estranho é rapidamente
substituído por um aceno de proximidade, cuja explicação perpassa este artigo.
Já conhecia o Presidente da Câmara. Antes de entrar no edifício, tiro o meu
computador e, em cima do pedaço de pedra preta, acedo, através da rede wi-fi
gratuita, à internet para confirmar se não me tinha enganado na hora da
audiência. A proximidade é de tal forma desconcertante que fico na dúvida se
deveria utilizar a palavra audiência. Não a utilizo. Entro e, mais uma vez,
sinto que faço parte daqui, mesmo que momentaneamente. Saio e atravesso a rua.
Entro na Santa Casa da Misericórdia para ir falar com o provedor. Não fazia a
mínima ideia que o provedor é o pároco local. Deixo escapar que é muito novo
para ser pároco e ele remata com uma pergunta simpaticamente desconcertante “Qual
é a idade para ser padre?”. Tento escapar por uns breves segundos mas o jovem
padre aproveita para mudar de assunto. Cai a noite. Por pura ilusão, pelo menos
penso eu, a noite no Corvo cai mais cedo. Começo a andar. Acho que é melhor “flanar”
do que andar. No caminho do acaso, encontro um senhor que aparenta ser de
leste. Vladimir, 54 anos, está em Portugal há 10 anos, há cinco nos Açores e há
2 no Corvo. Os dois imigrantes refletem a realidade dos Açores, enquanto espaço
de acolhimento dos imigrantes, que hoje represente perto de 2% da população
residente nos Açores. Troco o “flanar” por uma direção para ir ao encontro de
alguns dos poucos imigrantes que vivem no Corvo. Chego e uma senhora com ar de
ser a cozinheira pergunta-me se como carne de porco. Respondo-lhe que sim e não
me pergunta mais nada, nem para saber o que é que estou ali a fazer. Enquanto
saboreava a sopa, ia ouvindo o percurso de Vladimir, que desempenha as funções
de soldador, depois de ter desempenhado as funções de engenheiro mecânico na
sua cidade natal, Nikopol. A história de Vladimir é interrompida pelo percurso
de um outro imigrante que partilha a mesa connosco, oriundo do Senegal. Saímos
e demos uma volta à pista do aeroporto e o Vladimir quase que me faz um tour “Corvo
by Night”, inclusive as Flores que
estavam sinalizadas por um conjunto de luzes. Já de manhã, encontro um
cabo-verdiano que exerce as funções de marinheiro na embarcação que era suposto
levar-me para as Flores. Não sai. Até o aconchego tem o seu lado mais sombrio.
Mesmo assim vale a pena. Tudo isso aconteceu no dia em que se assinalou Dia
Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, 21 de Março. A base do
problema é tratar o outro como estranho. Por isso, vale a pena priorizar o aconchego.
Vale a pena vivenciar esta inigualável experiência humana que os Açores e, em
particular, a Ilha do Corvo proporcionam. Em Portugal, falamos muito pouco
sobre a discriminação racial e prevalece, infelizmente, uma preocupante invisibilidade
social e política dos imigrantes. Portugal tem a obrigação de fazer muito mais
pela inclusão dos imigrantes. Os imigrantes não são estranhos em Portugal mas,
estranhamente, andam por aí escondidos.
Publicado no Jornais " Açoriano Oriental" e Diário de Notícias"


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