És Cabo Verde di sperança



 Cabo Verde comemora, hoje, 5 de Julho, 37 anos de independência nacional. Cavaco Silva, à semelhança com muitos protagonistas e organizações internacionais insuspeitas, e em visita oficial ao arquipélago africano, fez rasgados elogios ao actual estado das ilhas e disse que Cabo Verde é um exemplo inspirador para dentro e fora de África.
Quem, por exemplo, vai a Cabo Verde pela primeira vez e é confrontado com estes elogios pode correr o risco de torcer o nariz e questionar, perante a dura realidade de milhares de cabo-verdianos, aonde é que está a tal inspiração?
O país, situado a pouco mais de quinhentos quilómetros do Senegal, possui actualmente, uma população de 434 mil habitantes e com uma média de idade de 23 anos. O país tem uma taxa de desemprego de 13% e há bem pouco tempo esta taxa estava acima dos 20%.
Cabo Verde tem uma diáspora gigantesca e ainda são muitos os cabo-verdianos residentes que almejam conseguir, no além fronteiras, uma vida melhor. A construção dessa diáspora foi consequência de uma vida difícil nas ilhas crioulas e que obrigaram a que milhares de cabo-verdianos procurassem na emigração uma oportunidade. Hoje, os milhares de cabo-verdianos que vivem por esse mundo dão um sentido único à nação cabo-verdiana e constituem uma dimensão essencial no processo de desenvolvimento do país.
Quem for andar pelas ruas dos principais pólos urbanos e nas respectivas periferias fica com a noção que a pobreza é ainda real. Esse olhar de fora é correspondido ainda com a frieza dos números sobre o índice de pobreza no país, em que 27% da população é ainda pobre.
Mas é preciso perceber o ponto de partida. A 5 de Julho de 1975 Cabo Verde tornou-se independente, depois de uma luta armada feita na Guiné-Bissau e liderada por Amílcar Cabral. Foi uma guerra estúpida, igual a tantas outras. Hoje, Cabo Verde consegue ter uma relação descomplexada com Portugal e faz do passado um trunfo na construção de uma relação de excelência. Todavia, na altura da independência foram muitas as vozes que não acreditaram, face a ausência de recursos naturais e humanos, no futuro das 10 ilhas. Hoje, depois de 37 anos, é possível com orgulho dizer que foi possível; é possível, com base no desenvolvimento que o país teve nas últimas décadas, com erros e alguns retrocessos como é normal, pensarmos ainda que com trabalho e perseverança é possível construir um país ainda melhor. A educação, a par com a boa governação, estabilidade e vivência democrática têm sido pilares basilares em nesta dinâmica de progresso do país. Nos momentos de euforia mas, também, da necessidade em repescar a esperança de quem vê a seca a atravessar a paisagem e de ver, angustiantemente, o céu azul e a procurar sem sucesso gotas de água para sobreviver, os Flagelados do Vento Leste, escrito por Manuel de Lopes, ajuda-nos nessa empreitada; a empreitada de sobreviver e não deixar nunca, mas nunca morrer a esperança.
Numa altura que o país comemora os 37 anos de independência, gostaria de assistir a um outro nível de cooperação entre Cabo Verde e os Açores. Existe vontade e elos de ligação inquestionáveis; precisamos de passar para coisa concretas. O desenvolvimento de qualquer espaço mede-se, igualmente, pela sua capacidade em estabelecer ligações e cooperação com outros territórios e entendo que existe espaço para uma real cooperação entre os dois arquipélagos.

Termino citando, também, e em jeito de homenagem a um dos expoentes máximos da literatura portuguesa, Jose Saramago, que disse o seguinte a propósito de Cabo Verde:"Cabo Verde fabrica o seu próprio chão, inventa a sua própria água, repete dia a dia a criação do mundo"

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