O meu amigo engraxador

"Era sempre à mesma hora. As aulas no liceu, cujo nome foi colocado em homenagem ao Domingos Ramos -um dos heróis na luta pela independência da Guiné-Bissau - terminavam religiosamente às 12:30. O sino do contínuo Marino, um senhor muito alto e de pele muito escura, confirmava-nos que o dia de aulas já tinha chegado ao fim. Do liceu até à praça eu demorava, em passos timidamente acelerados, uns 10 minutos. Neste curto percurso, eu passava pelo mercado e ouviu os ecos do habitual frenesim do principal mercado da cidade; assistia de longe as conversas das vendedeiras sobre o ano agrícola, os queixumes de donas de casa sobre o preço dos produtos e ouvia expressões muito familiares de regatear um determinado produto. Nesse caminho até à Praça, eu passava pela barbearia do Beto. O Beto foi, em tempos, um promissor jogador de futebol; foi um conhecido avançado dos Travadores, uma espécie de Benfica de Cabo Vede. Desde altura praticamente estabeleci um pacto de exclusividade do Beto com o meu cabelo, quebrado apenas pelas andanças na emigração. Ainda há minutos estive na barbearia do Beto. Encontro a mesma parede pintada de branco, o mesmo banco vermelho, hoje, visivelmente gasto. É o mesmo Beto e o que mudou no nosso encontro de hoje foi apenas o tema de conversa e o volume do meu cabelo. Falamos sobre a violência que tem sido muito visível na cidade da Praia. No meio da conversa conta-me que um chinês, proprietário de um comércio situado logo atrás da sua barbearia, foi assaltado em plena luz do dia e dentro do seu próprio espaço comercial. Taparam-lhe a boca com aquelas fitas adesivas castanhas e levaram perto de 50 contos. A partilha da sua angústia é sistematicamente interrompida com a venda de cartões de telefone da principal companhia da rede móvel do país. Confidencia-me que ganha 5% em cada cartão que vende e diz-me que o negócio serve para fintar a crise que também já chegou ao país. A praça onde ia encontrar-me com o meu amigo engraxador é uma típica praça erguida na época colonial portuguesa. A praça está circundada pelos diferentes poderes: em frente temos a igreja, mais à direita foi erguido o tribunal e poder político, simbolizado através do edifício dos Paços do Concelho, fica situado do lado norte. O engraxador, meu amigo, é conhecido por Zé preto. Perdeu umas das vistas por causa do álcool e há mais de 30 anos que não bebe nenhuma gota. Pelo menos ele diz isso e eu acredito. Foi nessa minha caminhada entre o Liceu e a casa que conheci o Zé Preto. Ele não sabe escrever, mas tinha como passatempo jogar no totoloto. Certo dia, e apercebendo que eu passava por lá todos os dias, interrogou-me se poderia preencher-lhe os formulários do totoloto e colocar o nome dele no boletim. Acedi, de forma imediata, ao seu pedido. Todavia, aquilo que pareceria ser um acto único e isolado, repentinamente passou a ser uma das minhas tarefas diárias. Muitas vezes teria de trazer para casa os boletins para preenche-los à noite e o sistema era sempre o mesmo. Ele marcava com um “X”os números que queria e eu os transcrevia para uma folha. Tinha ainda que colocar sempre o nome e morada dele: “José Maria dos Santos, morada Ponta Água”. A dada altura apercebi-me que ele apostava quase tudo o que ganhava no totoloto. Nunca fez os 6 pontos, mas ganhou por variadíssimas vezes os 5 pontos e o que significa que ele não perdeu dinheiro. Aliás, ele gaba-se de ter construído uma casa e de criar 4 filhos a engraxar os sapatos e, claro, com a ajuda do seu totoloto. O meu trabalho de preenchimento de boletins de totoloto foi surpreendentemente recompensador para mim. No Liceu, eu tinha todos os dias os sapatos impecavelmente engraxados. Mas ganhei, sobretudo, um amigo para toda a vida, um senhor cuja escola da vida ensinou-lhe as várias amarguras e a valorizar o que é para ser valorizado. Hoje, Zé Preto está decepcionado com a violência que a sua Praia está ser alvo. Está tão chateado que nos diz que preferia outros tempos e que hoje não reconhece a sua praça. Hoje conversamos sobre a violência. Aproveita a minha companhia e pede-me para lhe preencher alguns boletins e quando me apercebi estava de novo com os sapatos impecavelmente engraxados" O meu último artigo no AO " ", uma homenagem ao meu amigo " Zé Preto" cuja conversa e sabedoria nos animam na procura de melhores respostas e caminhos.

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