Ficamos sem sapatos

Poderia começar este artigo, colocando a questão ao contrário: com a morte da Cize, como é conhecida por todos, ficámos descalços, não tenho a menor dúvida que qualquer adjectivo ou agradecimento ficará aquém do percurso de Cesária Évora e do extraordinário legado que ela nos deixou. O Urbano Bettencourt, um amigo e um intelectual que melhor conhece a cultura cabo-verdiana, a propósito da morte da Cesária Évora, fez um post, repescando uma frase de Friedrich Nietzsche que diz: “Sem música a vida seria um erro”. As mornas interpretadas pela Cize, o balançar das suas coladeiras, dão-nos a mais profunda convicção de que “Sem música a vida seria um erro” e eu acrescentaria que sem a Cesária Évora a cultura cabo-verdiana não teria a projecção que hoje lhe é reconhecida. A Cize foi conhecida pela “Diva dos Pés Descalços”. Para além do sentido emblemático que esta figura de estilo assume e pelo próprio acto de ela actuar descalça, ela foi uma senhora com os pés bem assentes no chão e portadora de uma simplicidade extraordinária e, muita vezes, desconcertante. O dia 27 de Março de 2003 significou muito para mim, e para mais de 1600 pessoas que assistiram ao concerto dela no Teatro Micaelense, culminando também com o fecho de um ciclo deste espaço emblemático do Concelho e da Região. Foi a primeira actividade pública que a AIPA levou a cabo e lembro, como se fosse hoje, quando em Cabo Verde fui falar ela e com o seu empresário com o propósito de convidá-la para vir actuar nos Açores. O que parecia uma tarefa muito difícil tornou-se muito fácil com a concordância da Cize e com a condição de garantir “casa cheia”. Comprometi-me sem ter, na altura, nenhuma noção de que a Cize iria lotar por completo o Teatro Micaelense. A resposta dos açorianos não poderia ter sido melhor. Com o apoio imediato do Presidente do Governo dos Açores, a Cize transportou-nos, naquela noite de Março, pela profundidade e contradição das mornas e, ao mesmo tempo, com o intercalar do balanço das coladeiras para outras paragens. Foi um dos dias mas marcantes para mim nos Açores. Há poucos anos, em Santa Barbara, nos Estados Unidos, no âmbito da frequência de um curso de Inglês, um dos professores confessou, dentro da turma, que a artista preferida dele é uma senhora que se chama Cesária Évora, não fazendo ele a mínima ideia da origem da sua cantora preferida. Com muito orgulho, tive de interferir e dizer que a Cesária Évora é de Cabo Verde, país onde nasci. São muitos os cabo-verdianos que têm episódios semelhantes, em que pessoas de lugares improváveis conhecem a nossa Cize e desconhecem Cabo Verde. Por isso, a Cize transportou e ampliou Cabo Verde e a sua cultura para dimensões que nenhuma diplomacia chegaria. Por isso, a Cize é a nossa décima primeira ilha de Cabo Verde, como ela própria canta na terra estimada “Esses dez grãozinhos de terra que Deus espalhou no meio mar/eles são nossos e não foram tomados na guerra/Cabo Verde terra estimada”. Cize, amava Cabo Verde e deixava transparecer esse amor em que tudo que dizia e em que tudo que cantava. A Cize viveu a vida como ela quis e numa recente entrevista a um jornal português, perguntaram-lhe que faltava fazer e ela respondeu: -“agora é só morrer”. Ela respondeu à pergunta com convicção e apetece-me partilhar uma das minhas mornas preferidas que ela interpreta: “ Vida tem só um Vida”, onde ela canta que a vida tem apenas uma vida. Cesária Évora levou e interpretou esse sentido de forma literal. Começou a cantar, descalça, em bares na cidade do Mindelo. Deu o seu primeiro espectáculo fora de Cabo Verde em Lisboa sem conhecer as luzes da ribalta, convidaram-na para ir até Paris onde começou a ganhar reconhecimento. A partir daí, e sempre descalça, cantou e encantou meio mundo e como o primeiro ministro de Cabo- Verde disse “Cesária Évora calçou estas ilhas e deu-as a conhecer ao mundo”. Por isso, Cize, simplesmente, o nosso obrigado, nunca morrerás, porque e apesar de “cantares que Vida é só uma Vida”, ficarás no grupo restrito daqueles que ganharam imortalidade. Cize a tua vida tem mais do que vida, mas mesmo assim vamos ter muitas saudades tuas..

Comentários

MILHAFRE disse…
Exmo Sr. Autor do Blogue:

Queira fazer o obséquio de registar o lançamento dum novo blogue vocacionado para a Defesa dos Açores e do Povo Açoriano:

http://azoresforever.blogspot.com

De facto Açores e Cabo Verde sãos dois arquipélagos atlânticos de expressão portuguesa que têm muito em comum: história, lingua, literatura, música, folclore, emigração,etc.

Viva a República de Cabo Verde.

Viva a futura República Açoriana!
MILHAFRE disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Mendes disse…
Obrigado pela mensagem. cps

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