A 1ª traição matrimonial

A coligação entre o PSD e CDS-PP começou mal. O presidente da AMI viu, por duas vezes, a sua candidatura para Presidente do Parlamento rejeitada e, caso tivesse ganho, seria a primeira vez que o cargo seria ocupado por uma pessoa não proveniente das estruturas partidárias tradicionais. Aliás, o episódio vergonhoso e absolutamente desnecessário pelo qual passaram Fernando Nobre e Passos Coelho ficará nos manuais de como não proceder no contexto político, pelo menos à luz da realidade portuguesa. Em primeiro lugar, e não obstante o notável percurso de Fernando Nobre nas causas sociais, os cerca de meio milhão de votos conseguidos e o respectivo capital político foram conquistados à custa de um discurso anti-partido, bem como na produção de duras críticas à classe política. Em segundo lugar, o convite do PSD a Nobre destruiu automaticamente o entendimento com o PS e o próprio BE, tendo a pré-contratualização de uma candidatura ao cargo de Presidente da Assembleia (cujo voto é secreto e da exclusiva responsabilidade dos deputados eleitos) tirado margem de manobra ao entendimento com o próprio CDS-PP (que já se tinha manifestado contra a escolha de Nobre). Em terceiro lugar, a não-aceitação de Nobre para exercer o cargo de segunda figura política de Portugal releva a necessidade dos partidos reflectirem sobre a sua relação com os chamados independentes. O regime democrático precisa de partidos fortes e comprometidos com a sociedade. Os partidos já perceberam que estão a perder este elo de ligação com o quotidiano das pessoas e tentam desesperadamente encontrar estratégias (mais de cariz simbólico) para colmatarem esta mesma dificuldade. A fronteira entre um independente/dependente é sempre ténue e de difícil gestão pessoal e partidária. Um outro exemplo que reforça esta necessidade de os partidos pensarem sobre a triangulação entre partido, independentes e sociedade chega-nos da Europa, onde o eurodeputado eleito como independente nas listas do Bloco de Esquerda apresentou a sua desvinculação do grupo parlamentar do partido, mantendo as suas funções como deputado independente no Parlamento Europeu. Na prática, somos confrontados com um aproveitamento nos dois sentidos (dos partidos para com os independentes e destes para com o partido), que pode minar a capacidade dos partidos e criar situações confusas e inconsistentes. Parece-me, por isso, que a discussão tem de ser feita também neste sentido, ou seja, a criação de círculos uninominais (tirando a exclusividade dos partidos) ao mesmo tempo que se criam espaços para o reforço dos partidos. A ideia pode parecer confusa e contraditória mas este debate torna-se imperioso.

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