Os escafandros

1. No outro dia estive à conversa com duas jovens recém-licenciadas, na casa dos vinte anos. As duas estão empregadas e já não dependem dos pais. A conversa apareceu quase do nada e girou em torno da situação que o país está actualmente a atravessar. Falámos sobre a crise. Para além dos aspectos banais sobre a situação precária que o país está a atravessar, o que mais me impressionou foi a resignação e o medo que ambas demonstraram em relação aos tempos mais próximos: receio de perderem o emprego; temor de não conseguirem formar família; apreensão de que não irão conhecer outros sítios, enfim coisas banais, mas que fazem parte da nossa existência. No meio de tantos desassossegos, a possibilidade de serem confrontadas com o desemprego era a mais referida na curta conversa. O receio destas duas jovens é igual ao de milhares de jovens portugueses e açorianos. Não fui capaz, no entanto, de partilhar com elas argumentos minimamente convincentes de que as coisas irão melhorar. Aproveito, por isso, para pedir às pessoas com responsabilidades políticas que foquem as suas atenções na questão do emprego. É verdade que a região apresenta ainda a mais baixa taxa de desemprego do país, apesar do seu crescimento em relação ao ano passado. No entanto, a região apresenta algumas fragilidades que devem ser levadas em consideração e eu, pessoalmente, estou curioso para perceber, por exemplo, a capacidade de absorção do mercado regional dos jovens que terminaram recentemente o Programa Estagiar L, até porque foram feitas alterações significativas ao seu enquadramento legal. 2. Portugal celebrou o 25 de Abril no meio de uma época particularmente desassossegada e que exigirá grandes sacrifícios por parte dos portugueses (alguns). No meio das celebrações, vamos ouvindo, com menor ou maior intensidade, vozes que defendem o regresso ao tempo de Salazar. Em primeiro lugar, é pura perda de tempo fazer este raciocínio já que o tempo não volta para trás. Em segundo lugar, e apesar de ter nascido depois da revolução e num país que outrora foi uma colónia de Portugal - que se tornou independente graças, em parte, à revolução dos cravos -, acho que a liberdade é o oxigénio colectivo de uma sociedade e colocar em causa esta conquista, mesmo num período tão difícil como o que estamos a viver, é, no mínimo, ofensivo. 3. Pessoalmente, já estou farto de ouvir falar das causas do desaire de Portugal. É hora de nos concentrarmos nas soluções e, apesar de acreditar que os cidadãos devem ter um papel cada vez mais activo na gestão da coisa pública, não tenhamos ilusões de que o futuro do país mais imediato dependerá das opções políticas, ou seja, dos actores políticos. É claro que a pressão da chamada sociedade civil é importante, mas a responsabilidade recai sobre quem tem o poder político. Por isso, as próximas eleições são importantes e irão revelar, entre outras coisas, se os portugueses se estão nas tintas para este país ou se irão dar um sinal muito forte do contrário, através do voto. Cada um, obviamente, com as suas convicções mas perante a situação delicada do país, existem algumas questões sobre os quais os partidos políticos terão de dar uma resposta prévia, ou pelo menos, indicações seguras sobre o que vão fazer caso vençam as eleições do dia 5 de Junho: Quando o país ficar mais folgado financeiramente, qual será o país que teremos? Teremos o mesmo problema com as exportações e com o desemprego? A justiça continuará lenta? O Estado voltará a gastar acima das capacidades? Voltar-se-á aos jobs for the boys, em que o mérito é colocado num caixote do lixo? O estado social, onde é que se situará? Se é para continuar, onde se irá buscar o dinheiro? As parcerias publico-privadas são para continuar ou não? Os administradores das empresas públicas irão ter um ordenado compatível com o país que temos ou não? Se um dos grandes problemas em Portugal é o aumento do fosso entre os pobres e os ricos, o que é que se pretende fazer em concreto para atenuar esta assimetria? O acesso aos cuidados de saúde continuará gratuito ou não? A lista de perguntas é infindável. É neste contexto, pois, que os eleitores deverão posicionar-se e, com uma atitude crítica, perceber quem pode liderar o processo de inversão e quem apresenta soluções compatíveis com essa intenção.

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