Atenção à Coesão Social

O partido que vier a ganhar as próximas eleições legislativa tem pela frente uma tarefa espinhosa: por um lado, colocar as finanças públicas em dia, potenciar o crescimento da economia e, simultaneamente, garantir as condições para a permanência de um razoável grau de coesão social. Recai sobre mim o receio de que a imposição das medidas que Portugal terá adoptar recairá de forma violenta sobre os indivíduos mais vulneráveis e não alterando algumas das questões estruturais voltaremos dentro de poucos anos a estar na corta bamba e a merecer a ajuda alheia. Face à actual situação, é muito fácil culpabilizar os agentes políticos e os sucessivos governos. Seguramente que a actual situação deve-se a opção de políticas erradas mas que merecerem a devida conivência da sociedade portuguesa e da sua elite. As próximas eleições terão de representar, necessariamente, uma alteração substancial da forma de fazer política e da relação que as pessoas têm com as opções governativas. Os próximos tempo serão duríssimos e Portugal face as suas potencialidades, enquadramento político e da sua própria história (porque não dizê-lo) tem a obrigação de estar num outro patamar e evitar ser alvo de chacotas dos outros países com menos potencial e história. 2. Se olharmos para o programa eleitoral (em especial do PS e PSD) a referência à contenção dos gastos do Estado está bem fincada. No entanto, o PCP, BE e CDS-PP apresentaram recentemente uma proposta no sentido de garantir que a remuneração fixa dos gestores públicos eleitos para cargos executivos em sociedades anónimas com capital maioritariamente público, ou nomeados para cargos executivos do sector empresarial do Estado, de entidades públicas empresariais ou para entidades reguladoras independentes, não excedesse 90% do vencimento do Presidente da República. Esta proposta de limitação de remuneração de remuneração mereceu, no entanto, o chumbo do PS e PSD. Alguns exemplos: O Presidente dos EUA aufere por ano cerca de 291,290 47 € e o Presidente da TAP recebeu, em 2009, 624,422,21 €. A Chanceler alemã, Ângela Merkel, recebe 220,000,00 €/ano e o Presidente da Caixa Geral dos Depósitos recebeu no ano passado 560,012,00 €. O Presidente do Conselho de Administração da RTP recebeu no ano passado 254,314,00 € e o Presidente da ANA 189,273,92€. A lista é infindável e seria interessante questionar os dois maiores partidos sobre o que pensam fazer sobre a remuneração dos gestores públicos? Existem ainda muitas empresas públicas que operam numa situação de monopólio cuja remuneração dos seus gestores tem que ser, perante o quadro actual, repensada. Não é equilibrado que num país cujo salário médio ronda os 837,00 € haja gestores a ganhar por mês entre 14 a 60 anos de salário médio de um português. De resto, é bom não esquecer que Portugal é um dos países na UE que apresenta maiores desigualdades sociais, sendo que não podemos menosprezar esta dimensão no processo de desenvolvimento do país. A questão da remuneração de gestores públicos é, possivelmente, a face mais visível desta desigualdade e, por isso, alvo de intervenções demagógicas. Acredito, todavia, que é incomportável a existência de fossos desta dimensão e com a introdução de algum equilíbrio e bom senso nesta matéria, o poder político estará a dar um forte sinal de que é necessário criar as condições para uma sociedade menos desigual. 3. Em Cabo Verde as pessoas seguem de perto o quotidiano português e percebe-se claramente do impacto que a crise poderá gerar tanto no contexto de cooperação como no envio das remessas dos emigrantes cabo-verdianos em Portugal. Todos os dados apontam para uma forte diminuição dos fluxos migratórios bem como o regresso de muitos imigrantes para os seus países de origem. Apesar da crise internacional, as remessas dos emigrantes cabo-verdianos aumentaram 22,7% em Março em comparação com o mês anterior. Estamos a falar de um valor muito próximo de 10 milhões de euros sendo que cerca de 1/3 (3,3, milhões) foi proveniente de Portugal. Tendo em conta que os próximos tempos serão difíceis em Portugal, existe uma legítima expectativa no sentido de perceber o grau do impacto que esta situação terá em Cabo Verde, nomeadamente no próprio envio das remessas que assume uma importância muito forte no quotidiano de muitas famílias em Cabo Verde.
Publicado no dia 11 de Maio de 2011 no Açoriano Oriental

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Cabo Verde, um percurso de esperança

Slow Ferry e o enguiço do Estado

Fine coliving in the Azores