O país do " porreiro" pá

A crise política que o país está a atravessar tem sido objecto das mais variadas interpretações, fazendo emergir argumentos, em muitas circunstâncias, complexos que tendem a fugir à compreensão do cidadão comum, onde me incluo. Se nos colocássemos na pele de um marciano que aterra, pela primeira vez, em terras lusas, a explicação seria mais ou menos esta: José Sócrates é um político português que nasceu no início do mês de Setembro, no ano de 1957, em Vilar de Maçada, Alijó. É licenciado em Engenharia Civil (questionou-se, em tempos não muito remotos, a veracidade desta licenciatura), Secretário-geral do PS desde 2004 e Primeiro-ministro de Portugal desde 12 de Março de 2005. No dia 23 de Março último, apresentou a demissão ao Presidente da República (que não nutre muito simpatia por ele), depois dos partidos da oposição terem rejeitado as medidas de austeridade apelidadas de PEC IV. Teoricamente, o PEC significa “Pacto de Estabilidade e Crescimento” mas, na prática, é um conjunto de medidas que o Estado Português tem vindo a implementar para ir buscar dinheiro aos portugueses, sobretudo junto dos que nada ou pouco têm e dos remediados, com o objectivo de colocar as finanças públicas em ordem. Passos Coelho é, desde Março de 2010, o líder do PSD, o maior partido da oposição. Passos tem muita pressa em chegar ao poder e, se não o fizer nos tempos mais próximos, serão os próprios colegas de partido a “fazer-lhe a cama”. Por isso, as escolhas de Passos estão condicionadas, infelizmente, pelo próprio timing político. Todos, incluindo os restantes partidos da oposição, queriam (querem) despachar José Sócrates e, ao fazê-lo, empurraram Portugal e os portugueses para uma situação extraordinariamente difícil. Se a situação económica do país já era débil, com a crise política a situação deteriorou-se e os mercados estão a responder com taxas de juros cada vez mais altas e, a acreditar nos especialistas, o recurso à ajuda externa por parte de Portugal é hoje uma inevitabilidade. No entanto, esta primazia do jogo político é reveladora da excessiva centralidade que o poder político assume na sociedade portuguesa e de uma preocupante desvalorização da sociedade civil, onde nos estou a incluir a todos. Algumas das pessoas mais influentes do país, nomeadamente do tecido empresarial, vieram a público alertar para as consequências negativas de um cenário de eleições antecipadas e para a necessidade de haver um amplo entendimento entre as diferentes forças políticas sobre alguns dos aspectos estruturais do país. O drama da crise política que estamos a viver é o seguinte, na minha opinião: se alterássemos os papéis dos protagonistas (ou seja, caso o PS fosse agora oposição), o resultado seria genericamente o mesmo, isto é, enterrariam o país. Por isso, perante o quadro eleitoral que se aproxima, há duas coisas que devem acontecer: a primeira, é a urgência de um amplo compromisso entre as forças políticas sobre as questões estruturais do país. A actual situação do país é incompatível com birras ideológicas absolutamente inconsequentes. Crescimento económico, desigualdade social, desemprego são apenas alguns dos sectores que carecem deste acordo ou, utilizando a expressão de um economista, “Portugal precisa de um verdadeiro caderno de encargos”. À esquerda do PS, tivemos um sinal parcial e inédito: respondendo a um convite do BE, os comunistas e bloquistas vão discutir a possibilidade de uma coligação pós-eleitoral. Digo parcial porque deixa de fora as outras forças políticas. Portugal está numa fase em que ter políticos “porreiros” é manifestamente insuficiente. Mas, também, é uma altura em que Portugal precisa que os seus cidadãos sejam mais do que “porreiros”; é crucial uma maior intervenção civil e mais pressão sobre as pessoas que têm a responsabilidade de nos governar.

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