If you can't fly then run, if you can't run then walk, if you can't walk then crawl, but whatever you do you have to keep moving forward.” Martin Luther King
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Engataram o Nobre
O facto do Fernando Nobre ter aceite o convite do PSD para ser cabeça-de-lista em Lisboa e ter negociado a possibilidade de ser, em caso de vitória do PSD, o próximo Presidente da Mesa da Assembleia sugere várias interpretações e acarreta derrotados e vitoriosos. Os partidos políticos já perceberam que existe uma onda crescente de descontentamento dos portugueses em relação à vida político-partidária e aumenta o número de cidadãos que, apesar de interessados pelo bem comum, não se revêem na lógica de actuação dos partidos políticos. A abstenção eleitoral e a fraca adesão das pessoas aos partidos políticos constituem alguns dos muitos sinais deste distanciamento. Com efeito e perante esta desilusão, têm emergido espaços para a afirmação de candidaturas independentes, fazendo com que os partidos políticos levassem mais a sério o tal distanciamento que existe com os cidadãos. Perante este quadro existem, pelo menos, três respostas possíveis. A primeira é obrigar os partidos políticos a abrirem genuinamente as suas estruturas à sociedade civil e minimizarem a ditadura de lógicas partidárias com muitas consequências negativas para todos nós, como por exemplo, o surgimento de governantes e representantes sem o devido mérito e competência. A segunda resposta, mais sensata e de resultados a médio e longo prazo, seria retirar, a partir do quadro legal, a exclusividade dos partidos no processo de chegada ao poder. Lembro que os deputados são eleitos indirectamente e votamos nos mandatos que as direcções dos partidos distribuem e eu tenho dificuldades em perceber a lógica que preside à colocação de pessoas das listas. Nós não escolhemos deputados, não sabemos quem são, não conhecemos o percurso. Limitamo-nos a votar numa lista que nos é apresentada por alguns iluminados. Da minha parte defendo a criação de círculos uninominais em que cada deputado ganharia as suas próprias eleições e potenciava uma maior pluralidade do parlamento e, por consequência, diminuía a ditadura partidária. Os círculos uninominais acarretam alguns riscos, mas acho que valeria a pena pelo menos fazer esta discussão. A terceira resposta dos partidos políticos passa por aniquilar as tentativas de afirmação da sociedade civil e foi basicamente isto que o PSD fez ao convidar Fernando Nobre para encabeçar a lista para Lisboa. O convite do PSD é perfeitamente legítimo e insere-se, por um lado, na estratégia em contrariar o peso crescente dos ditos independentes e do descontentamento das pessoas faces às lógicas partidárias e, por outro, transferir os tais votos para o partido. Quando os outros partidos criticam a escolha no Nobre fazem-no imbuídos por uma terrível dor de corno e nada mais. Ser independente significa justamente não estar preso a nenhum partido e sejamos honestos: todos os partidos gostariam de capitalizar os 583582 votos de Nobre. O problema tem a ver com a legitimidade da resposta do Nobre. Uma boa parte, para não dizer a maioria, das pessoas que votaram no FN fizeram-no pelas mesmas razões pelas quais não votarão no PSD nas próximas eleições. Dito de outro modo, ao aceitar a integração numa lista partidária, FN perde a substância e o encanto de muitos dos seus eleitores. Perde, mesmo que simbolicamente, o estatuto do candidato da cidadania e ao ler centenas de post no facebook do FN (que foi encerrado ontem) percebemos da amplitude da desilusão dos seus apoiantes. Aliás, não é preciso recuarmos muito e, se olharmos para a eleição de Manuel Alegre, perceber-se-á que não é linear esta transferência de votos. Entre as eleições de 2001, em que se candidatou como independente, e as de 2006, em que foi apoiado por PS e BE, Manuel Alegre perdeu mais de 320 mil votos. Numa perspectiva de curtíssimo prazo, a máquina partidária pensa que encontrará com esta estratégia um analgésico para resolver um problema bem mais grave e complexo e que exigiria uma reflexão mais cuidada sobre a própria renovação dos partidos e não estratégias políticas primárias. O dramático é que precisamos de partidos políticos capazes e com pessoas capazes, já que no actual quadro quem tem a exclusividade e, por conseguinte, a legitimidade de guiar os nossos destinos são eles. Fernando Nobre disse há pouco tempo que ficaria longe dos partidos. Se já estava a ser alvo de vários engates deveria, pelo menos, ter dado sinais de que não iria resistir.
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