Engataram o Nobre

O facto do Fernando Nobre ter aceite o convite do PSD para ser cabeça-de-lista em Lisboa e ter negociado a possibilidade de ser, em caso de vitória do PSD, o próximo Presidente da Mesa da Assembleia sugere várias interpretações e acarreta derrotados e vitoriosos. Os partidos políticos já perceberam que existe uma onda crescente de descontentamento dos portugueses em relação à vida político-partidária e aumenta o número de cidadãos que, apesar de interessados pelo bem comum, não se revêem na lógica de actuação dos partidos políticos. A abstenção eleitoral e a fraca adesão das pessoas aos partidos políticos constituem alguns dos muitos sinais deste distanciamento. Com efeito e perante esta desilusão, têm emergido espaços para a afirmação de candidaturas independentes, fazendo com que os partidos políticos levassem mais a sério o tal distanciamento que existe com os cidadãos. Perante este quadro existem, pelo menos, três respostas possíveis. A primeira é obrigar os partidos políticos a abrirem genuinamente as suas estruturas à sociedade civil e minimizarem a ditadura de lógicas partidárias com muitas consequências negativas para todos nós, como por exemplo, o surgimento de governantes e representantes sem o devido mérito e competência. A segunda resposta, mais sensata e de resultados a médio e longo prazo, seria retirar, a partir do quadro legal, a exclusividade dos partidos no processo de chegada ao poder. Lembro que os deputados são eleitos indirectamente e votamos nos mandatos que as direcções dos partidos distribuem e eu tenho dificuldades em perceber a lógica que preside à colocação de pessoas das listas. Nós não escolhemos deputados, não sabemos quem são, não conhecemos o percurso. Limitamo-nos a votar numa lista que nos é apresentada por alguns iluminados. Da minha parte defendo a criação de círculos uninominais em que cada deputado ganharia as suas próprias eleições e potenciava uma maior pluralidade do parlamento e, por consequência, diminuía a ditadura partidária. Os círculos uninominais acarretam alguns riscos, mas acho que valeria a pena pelo menos fazer esta discussão. A terceira resposta dos partidos políticos passa por aniquilar as tentativas de afirmação da sociedade civil e foi basicamente isto que o PSD fez ao convidar Fernando Nobre para encabeçar a lista para Lisboa. O convite do PSD é perfeitamente legítimo e insere-se, por um lado, na estratégia em contrariar o peso crescente dos ditos independentes e do descontentamento das pessoas faces às lógicas partidárias e, por outro, transferir os tais votos para o partido. Quando os outros partidos criticam a escolha no Nobre fazem-no imbuídos por uma terrível dor de corno e nada mais. Ser independente significa justamente não estar preso a nenhum partido e sejamos honestos: todos os partidos gostariam de capitalizar os 583582 votos de Nobre. O problema tem a ver com a legitimidade da resposta do Nobre. Uma boa parte, para não dizer a maioria, das pessoas que votaram no FN fizeram-no pelas mesmas razões pelas quais não votarão no PSD nas próximas eleições. Dito de outro modo, ao aceitar a integração numa lista partidária, FN perde a substância e o encanto de muitos dos seus eleitores. Perde, mesmo que simbolicamente, o estatuto do candidato da cidadania e ao ler centenas de post no facebook do FN (que foi encerrado ontem) percebemos da amplitude da desilusão dos seus apoiantes. Aliás, não é preciso recuarmos muito e, se olharmos para a eleição de Manuel Alegre, perceber-se-á que não é linear esta transferência de votos. Entre as eleições de 2001, em que se candidatou como independente, e as de 2006, em que foi apoiado por PS e BE, Manuel Alegre perdeu mais de 320 mil votos. Numa perspectiva de curtíssimo prazo, a máquina partidária pensa que encontrará com esta estratégia um analgésico para resolver um problema bem mais grave e complexo e que exigiria uma reflexão mais cuidada sobre a própria renovação dos partidos e não estratégias políticas primárias. O dramático é que precisamos de partidos políticos capazes e com pessoas capazes, já que no actual quadro quem tem a exclusividade e, por conseguinte, a legitimidade de guiar os nossos destinos são eles. Fernando Nobre disse há pouco tempo que ficaria longe dos partidos. Se já estava a ser alvo de vários engates deveria, pelo menos, ter dado sinais de que não iria resistir.

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