O país de brandos de costumes?

O lugar-comum costuma dizer que Portugal é um país de brandos costumes e que os portugueses têm na sua génese uma facilidade especial no tratamento com o outro diferente. Dos poucos estudos que existem sobre a discriminação racial em Portugal (ex: Jorge Vala, Edite Rosário) todos sugerem para a necessidade de desconstruir esta imagem fortemente enraizada na identidade dos portugueses. Obviamente que estou consciente que de noutras latitudes o fenómeno do racismo ganha outras proporções e contornos. Ainda recentemente um senhor alemão chamado Thilo Sarrazin publicou um livro, que já vendeu mais 1,2 milhões, em que refere de forma peremptória os imigrantes muçulmanos como “a causa de todos os problemas” e acredita que vão reduzir o nível de inteligência do país. São outros ventos. São ventos preocupantes que não nos podem deixar sossegados. O tema do racismo passa relativamente despercebido em Portugal, muito por causa desta crença dos brandos costumes. Todavia, hoje existem mais relações mistas (de pessoas de países e culturas diferentes), as escolas portuguesas são mais plurais em termos de diversidade étnica e cultural e, definitivamente, o país assume hoje uma notável diversidade cultural. No entanto, não conheço nenhum país que esteja imune às práticas racistas e, Portugal, não é excepção. Por outro lado, a aguda crise económica que se está a abater sobre vários países e, com óbvias consequências no aumento do desemprego, concorre de forma muito forte para a emergência e, em algumas circunstâncias, para a própria consolidação de um discurso xenófobo em relação aos imigrantes. Quando olhamos para o contexto migratório português percebemos que, hoje, estamos a assistir uma diminuição dos fluxos migratórios e, simultaneamente, a escassez de oportunidades de emprego. Por isso e, infelizmente, num contexto de escassez a linha divisória entre o “nós” e “os outros” fica mais saliente e tende a ganhar proporções inquietantes. É neste contexto que acho que é necessário a continuação do esforço de mobilização e sensibilização da população para o combate às discriminações. Uma primeira, de longo prazo, em os resultados não são imediatos que passa pelo trabalho junto dos mais novos no sentido de despertá-los para a valorização da diferença e prepará-los para um diálogo horizontal com pessoas que têm outras referências culturais. Uma outra, mais de curto prazo, passa pela eliminação de todas as barreiras legais que potenciam a discriminação, bem como a promoção da visibilidade do tema da agenda pública. A sociedade futura será o que dela fizermos e termino este artigo citando Fernando Pessoa... “Eu sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura”. Espero que todos nós possamos ser do tamanho do que vemos!

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