Os silêncios obrigatórios

Da minha casa via-se o cemitério. Alguns colegas achavam piada mas a maioria tinha um entendimento algo macabro acerca da minha residência e, claro, de todas as pessoas que viviam perto do cemitério. O único cemitério que existe na cidade da Praia fica exactamente na zona da Várzea. Quando era pequeno, a minha casa era um rés-do-chão. No entanto, o meu pai emigrou para Olhão, em Faro, e foi aí que conseguiu algum dinheiro para aumentar a casa. A casa ganhou mais um piso e, com isso, ganhámos uma vista mais directa para o cemitério. A maioria dos funerais era feita à tarde e não consigo perceber, a esta distância, a razão dessa preferência. Sei que, no final da tarde, altura em que terminavam os funerais, vinham muitas pessoas pedir um copo de água à nossa casa. Eram, sobretudo, pessoas do interior. O responsável do cemitério chamava-se Sr. Tchoy. Um senhor muito alto, de pele escura, muito escura mesmo e andava sempre com a barba por fazer. O Tchoy andava sempre com um molho de chaves, uma coisa mesmo enorme, cujo barulho acompanhava os seus passos. O Sr. Tchoy tinha à sua responsabilidade a chave da porta principal do cemitério e mais algumas dezenas de chaves de jazigos onde repousavam eternamente as pessoas com mais posses. O Sr. Tchoy também era o organizador da Tabanka da Várzea. A Tabanka é uma manifestação popular, de carácter festivo, que reúne o cântico, música, dança em cortejos que se realizam em determinadas datas do ano. Na Tabanka, existem muitos papéis; o rei, a rainha, o médico, etc. Até tem as tropas da Tabanka. O Sr. Tchoy desempenhava ainda o papel de comandante das tropas da Tabanka e, mesmo nos desfiles que aconteciam com alguma regularidade, ele não dispensava o seu molho de chaves do cemitério. Lembro-me de uma vez em que um corpo foi descoberto em estado de decomposição e era urgente fazer o enterro, mas o Sr. Tchoy não estava na Várzea. Encontrava-se algures com a tropa da Tabanka e ninguém tinha a chave do cemitério para além dele. Da janela da minha casa via-se as autoridades e o cadáver à espera do Sr. Tchoy que, entretanto, estava algures na Assomada num cortejo da Tabanka. Mesmo morando ao lado do cemitério e estando habituado a ter uma vista para a finitude da nossa existência, a morte causa-me sempre uma terrível incompreensão sobre a nossa existência.


Os funerais são sempre complicados para os que ficam, ou melhor, para os que ainda cá estão. Quando olhamos para o caixão meio aberto e para o morto que no dia anterior estava ao nosso lado a fazer coisas banais do dia-a-dia, apercebemo-nos por alguns instantes da efemeridade da vida. Percebemos, aliás, algo mais dramático: hoje somos nós que acompanhamos os amigos, famílias e conhecidos para a sua última morada; hoje, somos nós que sussurramos aos ouvidos de quem perde um ente querido as palavras de conforto que pensamos, no momento, não terem importância, mas que são de grande alento para quem as recebe. Mas amanhã ou depois será outros a desempenharem esse papel junto dos nossos que ficaram.

Percebemos, dramaticamente, que a vida é um projecto absolutamente finito e que não vale a pena complicar muito a nossa existência. Há pessoas que, pelo facto de terem algum poder económico, acham-se no direito de maltratar as outras e de passearem a arrogância e a sobraçaria. Outros, porque ocupam determinados cargos, acham-se pateticamente superiores ao comum dos mortais. Tudo isso é dramaticamente passageiro e, por isso, é quase que um imperativo moral que tentemos, cada um à nossa maneira, ser feliz, autêntico e cordial uns com os outros. Devemos isso à vida, pois a morte leva-nos a todos, sem excepção, para o tal silêncio obrigatório. Nem o Sr. Tchoy escapou.

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