A loucura de uns e outros

As últimas eleições presidenciais vieram confirmar, uma vez mais, um sintoma que tem acompanhado a vida política portuguesa nos últimos anos, que é o crescente desinteresse dos cidadãos perante a vida política. Poder-se-á afirmar que a previsibilidade dos resultados fez com que a maioria dos portugueses ficasse em casa ou ainda que os debates entre os diferentes candidatos não trouxessem nada de novo, nem soluções para o contexto particularmente difícil que o país atravessa. As explicações e especulações são muitas no sentido de justificar esta inquietante alienação. Diria mais: quando mais da metade da população não vota é uma vergonha para quem não vota, para quem ganha e quem perde, ou seja, para todos nós. Se as eleições acontecem num dia de sol, a malta prefere ir à praia; quando está frio prefere ir vaguear nos centros comerciais e, se estiver a chover, o sofá e o cobertor tornam-se irresistíveis. Portanto, não existe o dia perfeito para votar e qualquer coisa serve de pretexto para a não afirmação da cidadania. Nos Açores, a realidade da abstenção é dramática (69%) mas parece-me que os diferentes agentes políticos só se lembram deste problema minutos depois dos actos eleitorais. Há uma cultura de distanciamento cada vez mais crescente entre os açorianos e a política e ninguém está a fazer absolutamente nada para alterar o actual cenário. Não há nenhuma intervenção neste sentido e ninguém fala no problema depois das eleições. Precisamos, no entanto, de saber com mais rigor quem é que não vota e o respectivo perfil; conhecer o número de pessoas que não fizeram a devida alteração de morada ou que, devido a problemas técnicos/burocráticos, não têm tido oportunidade de votar; se esta não participação tem uma relação directa com os diferentes graus de escolaridade e condição socioeconómica; ou, ainda, se a idade interfere ou não com o grau de participação. Para uma região como os Açores, em que o governo é “pau para toda a obra”, é ainda mais estranho este afastamento, cuja amplitude deveria merecer uma outra preocupação. A segunda nota tem a ver com a vitória de Cavaco Silva. Era expectável esta vitória, mas estava convencido que Manuel Alegre teria uma maior votação nos Açores. É estranho que, face ao histórico que Cavaco Silva tem para com os Açores, tenha conseguido um número de votos tão expressivo e vencido em todas as ilhas. A outra nota tem a ver com o extraordinário resultado de Fernando Nobre que, apesar de uma presença política pouco forte e motivadora, teve mais de 600 mil votos. Tenho a ideia de que o sistema político português é muito fechado e que os partidos políticos têm na prática a exclusividade no acesso ao poder. O resultado de Fernando Nobre veio dizer-nos que é possível, mesmo sem uma estrutura partidária, fazer passar a mensagem e constituir-se numa alternativa credível. Este espaço que está a ser conseguido de forma gradual pela sociedade civil pode ser entendido, por um lado, como uma resposta ao próprio fechamento dos partidos políticos e, por outro, ao crescente distanciamento que têm com o quotidiano das pessoas. Fingem que estão ligados à sociedade, criam os conhecidos fóruns e espaços de reflexão inconsequentes mas na prática ficam refém das próprias lógicas partidárias. Neste sentido, o crescimento de espaços para candidatos sem nenhum aparelho partidário por detrás é um sinal de que os partidos políticos não podem desprezar, sob pena de perderem drasticamente a relevância, com perdas substanciais para a democracia. Coelho é uma outra surpresa que carece, igualmente, de uma leitura cuidada. Todos nós sabemos que Coelho não tem perfil nem currículo para ser Presidente da República. O próprio Coelho tem a noção desta limitação. No entanto, conseguiu 190 mil votos (2925 deles nos Açores) e este resultado não nos pode deixar indiferentes.
Publicado no Açoriano Oriental no dia 26/01/2011

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