Açores e Cabo Verde: um patarmar de relacionamento?

Já tive oportunidade de dizer em várias ocasiões que existe um potencial real mas que está subaproveitado nas relações entre os Açores e Cabo Verde, nomeadamente, no âmbito do espaço da macaronésia que engloba ainda, como é sabido, os arquipélagos da Madeira e as Canárias. Ontem, Cabo Verde teve o apoio formal de Portugal e Espanha para integrar a região da macaronésia, sendo que não é desvalorizar o apoio político que o governo regional emprestou a esta intenção do arquipélago atlântico africano. A descontinuidade territorial que condiciona a aplicação de políticas convergentes com esta realidade constitui um dos muitos argumentos que justificam essa aproximação. Este entendimento sobre a importância das relações entre Cabo Verde e os Açores é hoje reconhecido pelos diferentes agentes e, em particular, dos dois governos. O Presidente do Governo Regional já visitou Cabo Verde duas vezes sendo que, pelo menos na última visita, foi acompanhado com uma vasta comitiva empresarial. O primeiro ministro de Cabo Verde retribui a visita em 2008 assente no desejo claro no aprofundamento das relações entre os dois países. Agora, precisamos urgente de passar de uma retórica política para acções concretas no sentido de darmos conteúdo a este legítimo e necessário anseio para uma maior aproximação entre os dois arquipélagos que vivenciam uma extraordinária cumplicidade. No plano económico, existe uma possibilidade real dos Açores exportarem produtos lácteos e derivados para Cabo Verde e a um preço bastante competitivo. Coloca-se, e com toda pertinência, a questões dos transportes e, estou convencido que no âmbito da parceria especial de Cabo Verde com a União Europeia existe uma margem muito grande para a elegibilidade de apoios comunitários no sentido de suportar ou, pelo menos minimizar, os custos com os transportes de mercadorias para Cabo Verde. Neste momento, um litro de leite em Cabo Verde, é vendido ao consumidor final à volta de 0,87 cêntimos. No sector da carne existe igualmente condições e oportunidade de exportação de Cabo Verde e há muitos actores que aguardam este impulso. As Canárias já estão a marcar terreno há já algum tempo. Actualmente, existe uma cimeira anual entre os governos de Cabo Verde e das Canárias; são cada vez mais alunos cabo-verdianos que frequentam as universidades das Canárias; no final deste ano será criada uma casa das Canárias em Cabo Verde; e no âmbito económico já é visível e com uma grande dinâmica de crescimento de negócios de empresa das Canárias em Cabo Verde. Tenho, pois, receio que fiquemos à dormir à sombra de um vontade política mas que não é acompanhada com acções concretas e repercussões visíveis nos dois arquipélagos. Na parte do ensino, chegámos a ter mais de 40 estudantes na Universidade Açoriana e hoje são muito menos e não se vislumbra, no imediato, a alteração deste cenário. É certo que nos últimos meses, a partir da geminação entre as Câmara da Ribeira Grande dos dois arquipélagos, assinou-se um protocolo para a recuperação de algumas moradias numa zona muito carenciada na Ilha de Santiago. Vamos ver como é que corre a execução do projecto que constitui inequivocamente uma acção concreta de cooperação. As Câmaras de Ponta Delgada e da Praia têm igualmente um protocolo de geminação e existe também uma expectativa sobre as consequências práticas na vida das duas populações. A Câmara Municipal das Velas, foi de resto, a primeira autarquia açoriana e estabelecer um acordo de geminação com o poder local em Cabo Verde e em tempo foi possível fazer algumas coisas interessantes. No âmbito dos projectos Interroga III MB, também, foi possível concretizar alguns projectos e que concorreram para uma maior aproximação entre os dois arquipélagos. Todavia, temos ainda que levar os Açores a Cabo Verde, pois ainda prevalece um grande desconhecimento da realidade açoriana junto dos cabo-verdianos e nenhuma cooperação sobrevive sem este conhecimento mútuo. Em resumo, diria que precisamos de acções concretas no sentido de suportar a visível vontade política que existe para uma maior aproximação entre Cabo Verde e os Açores, para que o cidadão comum possa perceber e vivenciar do que estamos a falar. Existe um tempo para tudo, para a retórica e para a acção. As oportunidades estão aí, cabendo, no entanto, o poder político a responsabilidade de criar as condições para o seu aproveitamento .

Comentários

Paulo Mendes disse…
Dinis apaguei sem querer o teu comentário (: desculpa

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