O desemprego, estágios e afins

Vivemos uma altura complicadíssima a nível de emprego, tanto no contexto nacional como regional, e nos tempos mais próximos as coisas serão ainda mais difíceis. Infelizmente, quem está a pagar a factura e continuará a fazê-lo serão os mais fragilizados e os “remediados”, ou seja, a classe média. Andamos, também, numa época em que o Estado, com o dinheiro de todos nós, andou a socorrer muitas empresas para garantir, pelo menos teoricamente, o bem público que é o emprego. Na Região tivemos dois exemplos, a Sinaga e o Campo de Golfe. Para garantir o emprego acho que todos os esforços são sempre insuficientes. De qualquer modo, não percebo que agora em nome do PEC o Governo da República esteja a planear privatizar os CTT e a TAP. O filme poderá ser mais ou menos este: o Governo irá privatizar agora, alguns irão ganhar milhões, e quando a coisa der para o torto o Estado irá pegar no dinheiro de todos nós para as salvar. A pergunta de qualquer cidadão comum é se, perante as actuais circunstâncias, não seria mais prudente não avançar com as referidas privatizações? Na última semana a taxa de desemprego diminuiu ligeiramente, mas apesar de ser a mais baixa do país, para a nossa Região é um número sempre preocupante. Já escrevi, anteriormente, que todas as medidas possíveis de serem implementadas na Região, de fomento ao emprego, estão a ser concretizadas. O problema é outro, ou seja, não da implementação das tais medidas mas sim da sua eficácia. O exemplo interessante tem a ver com o programa de Estágios, nomeadamente o Estagiar L. Julgo que ninguém duvida das mais-valias que os vários programas de estágio representam, tanto na promoção do emprego como na criação de um primeiro contacto dos recém-licenciados com o mundo de trabalho. Não conheço as estatísticas, mas com base nos contactos que vou tendo, sei que muitos jovens que hoje estão a trabalhar fazem-no no seguimento dos programas de estágio. Face a este enquadramento, a pergunta não é sobre a importância do programa de estágio mas sim se é possível fazer muito melhor para que esse instrumento possa efectivamente servir sobretudo os jovens e não as entidades. Vou ser mais claro: o actual enquadramento dos estágios, dois anos para as ilhas de coesão e um ano para as restantes, e sem nenhum custo financeiro para as entidades (com excepção do seguro) servem mais às entidades do que aos jovens, subvertendo, desta forma, a essência de qualquer estágio profissional. Acho, por isso, que vale a pena a criação de mecanismos que possam responsabilizar mais as entidades nos estágios. Dito de outro modo: como os estágios não têm custos nenhuns para as entidades, existe o perigo real de, por um lado, as entidades não valorizarem convenientemente os estágios, e por outro, de nem criarem as condições para a possível permanência do jovem após a conclusão do estágio. Por outro lado, acho importante a valorização de entidades que por exemplo tenham no seu quadro colaboradores que vieram do programa do estágio. Colocar no mesmo saco entidades que usam e abusam dos estagiários sem nunca contratarem ninguém pode gerar a longo prazo um efeito perverso. Mais uma vez, reitero a importância que esse mecanismo assume na promoção do emprego, mas é necessário aumentar a sua eficácia e torná-la, objectivamente, uma mais-valia para os jovens.
Publicado no Açoriano Oriental, no dia 23-03-2010

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