Misturas Explosivas

No outro dia, no âmbito das minhas andanças pelo mundo das migrações, soube de uma história, igual a tantas outras, onde a maldade, a violência e o desprezo pela dignidade humana se conjugam para uma vivência absolutamente explosiva tanto numa perspectiva pessoal como colectiva.
Carlos, natural de São Miguel, formação superior, de classe média, conhece através da internet o António. O António, brasileiro, com uma vida relativamente folgada nas terras brasileiras, apaixona-se pelo Carlos. A paixão é recíproca. Depois de longos meses de namoro e com a preciosa ajuda do skype, Carlos insiste António para que ele se mude para os Açores. Depois de muita hesitação, como é normal nesse tipo de decisão, o António deixa o emprego, vende o carro e entra num voo da TAP rumo a Lisboa e, em seguida, na SATA para desembarcar, numa noite fria de Outubro, na cidade de Ponta Delgada.
Apesar da distância e das naturais amarguras de qualquer processo migratório, o facto de vir atrás de uma suposta cara-metade atenua drasticamente as tais amarguras. Para além disso, o António teria de começar tudo de novo a nível profissional. Numa altura de crise económica e da consequente escassez de ofertas de trabalho, um recomeço profissional acarreta um esforço muito maior. Mas o amor supera quase tudo, confessa o António e acrescenta que foi essa banalidade que o fez mudar de armas e bagagens para o meio do oceano atlântico.
O Carlos tem uma vida muito fechada na ilha. Nunca assumiu a sua orientação sexual e o António viveu, nos primeiros tempos, as consequências desse armário. Raramente saíam em público: nem festa, nem exposição e muito menos uma saída à noite. Esse modo de vida contrastava em muito com o que ele tinha no Brasil, mas Carlos tinha a convicção de o tal amor servia de suporte para a sua continuidade por cá nas ilhas e esse armário seria temporário.

Passados alguns meses a coisa estoirou. Por causa de “ciúmes bobo” o Carlos começou a agredir fisicamente o António. Começou com pequenas violências físicas; tirou-lhe o passaporte. O António, por amor mas também e, sobretudo, porque o visto de curta de duração que, entretanto, lhe foi concedido já tinha ultrapassado e com receio de ir à polícia não teve outra alternativa senão suportar a violência. No entanto, um dia a violência ultrapassou todos os limites. Ficou com um olho negro e o António entendeu que era a altura de regressar ao país de origem e deixar para trás o sonho: o sonho de viver um grande amor por cá.
E assim foi. O António meteu-se numa manhã num avião da SATA e à noite no da TAP para amanhecer no Brasil passadas pouco mais de 24 horas.
Por razões compreensíveis, o António não quis apresentar queixa e essa violência ficou por aí. Com vítimas, mas sem nenhuma culpabilização para o agressor. Por causa disso, é bem possível que o António traga brevemente uma outra paixão do Brasil e as quatro paredes tornarão a testemunhar, silenciosamente, as de cenas de violência perante a fragilidade da vítima. É certo que esse episódio possa ter alguns contornos que não chegaram ao meu conhecimento. De igual modo, é de bom senso, antes de emitir algum juízo de, pelo menos, ouvir a outra parte. De qualquer modo, confidenciaram-me de marcas visíveis de violência no Carlos e do seu desespero de quem deixou tudo no Brasil atrás de uma ilusão. Leva daqui a decepção de um amor, mas também e, essencialmente, da violência física e psicológica.
Não é a primeira vez que este género de situações acontece por aqui. Vão acontecendo entre as quatro paredes e muito tardiamente chegam ao conhecimento público. Por isso, a vigilância de todos nós é crucial para a denúncia dos agressores. Se não o fizermos, estaremos de certa forma a perpetuar a violência que é sempre condenável em qualquer das circunstâncias.

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