As minhas mulheres

Nessas coisas de conquistas sociais, a comparação com os outros espaços e outros tempos ajuda-nos a relativizar as coisas e, sobretudo, a perceber que as mudanças dependem de nós e do consenso que possa existir ou não para a eliminação das discriminações. Cresci, à semelhança de muitos dos leitores desta crónica, com uma significativa e dramática ausência da figura paterna, o que quer dizer que quem aguentava a família diariamente era a mulher, a minha mãe. O meu pai andara, como se diz em crioulo, na “ branbam di imigraçon”. Holanda e Portugal foram os destinos por onde andou, enquanto a minha mãe cuidava dos 4 filhos. Hoje, quando falamos da imigração, percebemos que são cada vez mais as mulheres que concretizam sozinhas e/ou em primeiro lugar um determinado projecto migratório. Ela, a minha mãe, só fez a 4ª classe. O irmão, o meu tio, chegou a fazer medicina nos longínquos anos 70 na então metrópole. A minha mãe não estudou, à semelhança de muitas mulheres destas ilhas, porque, como os recursos eram escassos, a prioridade era sempre para os rapazes. Outras tarefas estavam reservadas às mulheres. Hoje, e tomando como exemplo Portugal, as mulheres constituem a maioria da população universitária. Podemos perguntar se isso quer dizer que as mulheres também estão em situação de igualdade nos cargos de chefia. Não. Os chefes, na sua maioria, ainda têm voz grossa, mas estou convencido de que o tempo se encarregará de eliminar essa diferença que ainda existe no mercado de trabalho em Portugal, tanto nas chefias como nas remunerações. Há 80 anos, em Portugal, as mulheres não eram sequer consideradas eleitoras. Hoje, cada vez mais são as mulheres a entrar nas fileiras partidárias e a assumir papel de destaque na vida político-partidária. No entanto, apesar da lei de paridade, com um olhar rápido para a Assembleia Legislativa Regional ficamos a perceber que a política ainda é feita, infelizmente, no masculino. Dos 56 anos deputados, apenas 14 são mulheres (25%). O PS é que tem relativamente às outras forças partidárias mais mulheres no seu grupo parlamentar. No PSD, no conjunto de 18 deputados, apenas 3 mulheres estão em exercício, o que é manifestamente insuficiente para o maior partido de oposição, apesar de a líder ser uma mulher. O CDS-PP, no que concerne à representação feminina, está muito mau: todos os cinco deputados em exercício são homens. O BE tem uma situação de verdadeira paridade e o PCP e PPM, com um deputado cada, ambos homens. Ao olharmos para a realidade actual e concreta da representação política das mulheres, tomando como exemplo o parlamento regional, ficamos com uma impressão de que só a obrigação para a inclusão de um terço de mulheres nas listas eleitorais é insuficiente quando, em muitas situações, percebemos que muitas mulheres constam na lista apenas por constar. Se fizermos esse exercício para a realidade autárquica, é uma hipótese plausível de que encontraremos manobras políticas para não cumprir a lei da paridade. Concordo, sem nenhuma reserva, com lei da paridade, já que a promoção da igualdade exige, quase sempre, que coloquemos o carro à frente dos bois. De qualquer modo, somos confrontados, às vezes, com as tais feministas radicais que entendem que a conquista de mais direitos para as mulheres deve ser feita contra os homens o que equivale a afirmar que é uma luta só de mulheres. Nada mais falso. Essa caminhada deve ser feita em conjunto, na convicção de que todos nós ficamos mais pobres se não formos capazes de construir uma sociedade que saiba fazer da diferença um valor acrescentado. Por isso, as nossas mulheres têm de assumir um papel cada vez mais relevante nas nossas sociedades. Só temos a ganhar com isso – basta olharmos para as nossas mulheres.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Cabo Verde, um percurso de esperança

Slow Ferry e o enguiço do Estado

Fine coliving in the Azores