Será que o Natal é igual para todos?

A raça, a idioma, a condição económica, a idade, o clima interferem muito pouco com a esperança, amor e solidariedade, valores que constituem a essência do natal em qualquer parte do mundo. Por causa da presença desses valores universais na celebração do Natal, podemos ser levados a pensar que o Natal é igual para todos. Deveria ser mas não é. O Natal é, definitivamente, uma festa desigual. Há quem irá receber prendas e outras não; há quem irá passa-la com a família e outras a única companhia que irão ter será o eco da voz pelo telefone, repleta de saudades dos quem deixou ou ficaram para trás. Há outras ainda em que na ceia abundará a comida e outras em que simplesmente não haverá nada. Há, por ventura, crianças que recebem prendas e mimos durante todo o ano e o Natal é mais uma oportunidade com a diferença da convicção de que a prenda será trazida, desta vez, por um senhor ligeiramente barrigudo, de barba longa e branca e trajado de vermelho. Há pessoas ainda que irão passar o Natal nas curvas da vida, altura propícia para um balanço sobre as coisas que realmente são importantes. Há pessoas ainda que, para este ano, não vão conseguir enviar as tais remessas para os familiares que por lá ficaram. O João, sabe muito bem do que eu estou a falar. Nasceu, no Pernambuco, Brasil, há 40 anos e tem uma filha que, por coincidência, nasceu no dia 25 de Dezembro. Já lá vão 15 anos. Como forma de homenagear o nascimento da filha no Natal, por comum acordo com a esposa e a madrinha, baptizaram-na com o nome de Natalina de Jesus. O padrinho que concordara com o nome de Natalina não achou piada ao segundo nome “de jesus”. O tempo de conversa com o João não deu para saber o motivo para tal discordância do Padrinho. Deve ser por causa de razões religiosas. Pura especulação minha.
Voltando ao João. Esta cá entre nós há pouco mais 6 anos. Como passou três anos sem nenhum documento o que conta mesmo são os três anos e, por isso, ainda não pediu a nacionalidade portuguesa. Encontra-se desempregado há quase ano. O João é um, entre muitos, que foi vítima da crise em que o sector de construção civil. Como trabalhou sem nenhum tipo de contrato não consegue aceder ao subsídio de desemprego. Por isso, o Natal do João irá ser mais amargo.
- Não por mim, desabafa. É por minha filha. Sabe, quando uma pessoa deixa a nossa terra, existe aquela confiança de que vamos melhorar de vida. Essa esperança atravessa todas as pessoas que nos são próximas e é mesmo difícil pegar no telefone e dizer aos nossos filhos que este ano não dá para comprar prendas. Espero que eles entendam.
Depois da conversa angustiante, o João volta a falar comigo com um sorriso.
- Na Europa o Natal é sempre mais frio e já é quarta vez que passo o Natal sozinho. Nos primeiros anos estava sem documento (não dava para sair) e agora que posso sair não tenho dinheiro. Nas anteriores as prendas serviam, até certo ponto, para minimizar a ausência.

O Harley é natural de Serra Leoa. Está cá em Portugal sem nenhum tipo de visto. Está a tentar regularizar-se há dois anos mas não tem conseguido. Já tentou obter o asilo político mas o processo foi indeferido porque as autoridades portuguesas acham que não existe nenhum motivo que lhe impede de regressar. Enquanto não consegue o tal documento, continua a não existir enquanto cidadão.
- Existo perante os meus amigos – quase que numa tentativa de corrigir o termo que ele próprio utilizou.
Pergunto-lhe onde irá passar o Natal e ele diz-me que será na casa da namorada que é de cá.
- Irá ser o seu primeiro Natal assim.

O Vasco esteve preso durante 3 anos. Teve uma daquelas curvas da vida e já pagou pelo erro cometido. A primeira e única filha, de 2 anos, nasceu por cá. Por imposição da Lei, as autoridades portuguesas recusam-lhe a renovação de Autorização de Residência. Por isso, também, ele não existe enquanto cidadão há mais 16 meses. Tem simplesmente um papel azul com dezenas de carimbos do SEF. Não pode sair e não pode trabalhar.
- Se o pai Natal existe, queria mesmo o meu Título de Residência como prenda. Poderia trabalhar e comprar uma prenda para a minha filhota, partilha esse sentimento comigo num português a inclinar para o crioulo de Cabo Verde.
São pessoas portadoras dessas histórias que vão passar mais um Natal. Tudo isso, no ano em que Portugal foi considerado o exemplo de integração dos imigrantes.
Queria colorir o Natal mas não dá. Apesar dessas angústias, desejo a todos um Bom Natal.

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