As brasileiras…

Nos processos de discriminações a sociedade açoriana não é diferente do resto do país. As sociedades têm formas semelhantes para criar e desenvolverem preconceitos em torno de diferentes minorias que sustentam, posteriormente, discriminações de diferentes graus e impactos. O importante não é saber se esta ou aquela sociedade discrimina mas sim quem é que é discriminado. Em véspera de Natal partilho com o leitor dois episódios que aconteceram aqui nos Açores.
No outro dia a Márcia (nome fictício) foi às compras com o marido. Depois das compras dirigiram à praça de táxi para regressarem à casa. No percurso para a praça de táxi, o marido teve de regressar ao espaço comercial para levantar o dinheiro num ATM. Nesse intervalo de tempo, a Márcia dirigiu-se sozinha para o táxi. O taxista, simpático, até lhe ajudou a arrumar às compras e quando ele se percebeu, que a Márcia é brasileira a primeira coisa que o taxista lembrou-se de perguntar à Márcia foi isso: quanto é que a menina leva para me fazer um oral? Literalmente, foi essa pergunta que o taxista fez, escassos segundos antes do marido da Márcia regressar. Maria, imigrante brasileira radicada há já alguns anos em São Miguel, está desempregada há já algum tempo. Casada, também, com um jovem açoriano começou nos últimos tempos a enviar currículo para diversas instituições. Aproveitando uma ida às compras, Maria foi perguntar se já havia vaga ou não para o trabalho que entretanto concorrera. A senhora que lhe atendeu disse-lhe que ainda não tinha nenhuma resposta. Uma outra funcionária que estava a ouvir a conversa, percebendo que a Maria é brasileira, disse-lhe literalmente isso:
- a menina é brasileira. Não sei porque razão quer vir trabalhar aqui. Se fosse a si, iria ganhar uns trocos como puta. Ganharia mais dinheiro.
A Maria nem queria acreditar no que acabara de ouvira e o episódio ainda está para ser revolvido pelo grupo que gere o espaço comercial em causa. Vivem em Portugal mais de 65 mil brasileiros e metade são mulheres. Nos Açores, a comunidade é composta por perto de mil brasileiros. A larga maioria das imigrantes brasileiras trabalha no sector do comércio, serviços e limpeza. No entanto, as pessoas insistem na ideia de que todas as brasileiras são prostitutas ou que trabalham na diversão nocturna. As brasileiras que vivem na Região, são confrontadas diariamente com comportamentos brutalmente discriminatórios. Há mulheres brasileiras na prostituição como temos portuguesas e açorianas a fazerem a mesma coisa. Acho que ninguém tem nada a ver com a vida alheia. Todavia, é muito preocupante quando percebemos que os estereótipos construídos à volta da mulher brasileira têm dificultado a necessária e desejável integração dessa comunidade nas nossas ilhas que tem dado, à semelhança com outros imigrantes, um contributo válido no desenvolvimento dos Açores.

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