Quero uma casa, senão faço greve de fome



A greve de fome feita pelo deputado corvino Paulo Estêvão dominou a imprensa regional na última semana, com direito a algumas referências na imprensa nacional (algumas até com fotografia).
Depois de um jejum de 61 horas, o chefe do executivo açoriano, com medo de que o Paulo Estêvão viesse a tombar, acedeu a instalar a dita delegação na mais pequena ilha. De facto, não é por aí que a reivindicação teve acolhimento até porque não descobri nenhum português que tenha morrido por causa de uma greve de fome. Aliás, se fosse assim, Portugal já teria perdido muitos cidadãos devido à inanição. Há bem pouco, foram os depositantes do BPN que disseram que iam entrar em greve de fome, caso não lhe fossem pagos os seus depósitos, foi um senhor que queria reabrir um processo num tribunal, enfim existem muitos episódios. A base de uma greve de fome tem a ver, essencialmente, com a possibilidade de aparecer na televisão e, por consequência, dar a visibilidade a uma reivindicação e condicionar a respectiva decisão.
Por isso é que a greve do deputado Paulo Estêvão foi absolutamente excêntrica e a resposta do Governo veio agravar essa excentricidade. Em primeiro lugar, se o Estatuto Político-Administrativo dos Açores diz que Parlamento Regional deve ter delegações em todas as ilhas, não se compreende a razão pela qual isso foi não resolvido há muito tempo, tendo em conta que o Corvo é a única ilha que não quem a dita delegação. Não me parece que seria por razões financeiras e mesmo que fosse, ter mais ilhas custa e como estamos sempre a reivindicar essa perspectiva em relação ao continente, fica-nos muito mal que internamente estejamos a discriminar as ilhas mais pequenas. Se não, e como alguns iluminados já defenderam, seria mais rentável fechar o Corvo.
Segundo, custa-me ver que um deputado regional que está em melhores condições de pressionar para alterar o estado de coisas tenha de recorrer à greve de fome para conseguir alguma coisa. Quem faz isso é na pior das hipóteses um cidadão comum que não é, geralmente, ouvido. Das duas, uma: ou o sistema democrático não está a funcionar convenientemente (no mínimo) ou Paulo Estêvão não tem importância nenhuma no parlamento açoriano. O leitor escolha a resposta. Já agora, preciso de um apartamento e, se não mo derem, entro para a semana em greve de fome. É melhor deixar a greve de fome para coisas mais sérias e pelo andar da carruagem é bem possível que venhamos a precisar dela

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