As paranóias de ser cabo-verdiano ou não?


Carta aberta ao
Exmo Senhor
Director Geral dos Desportos
Cabo Verde


Como é, seguramente, do seu conhecimento o desporto tem a capacidade de aproximar os povos e potenciar o conhecimento mútuo. Como também deve saber, o nosso país tem apostado, nos últimos anos, numa aproximação aos arquipélagos que compõe o espaço da Macaronésia, no sentido de potencializar as afinidades existentes entre esses espaços e favorecer um relacionamento mais próximo com a Europa.

Como também é do seu conhecimento, o nosso país foi convidado a participar no Campeonato de Fotografia Subaquática da Macaronésia que está a ter lugar desde o dia 29 de Agosto na Região Autónoma dos Açores onde, para além da vertente desportiva está subjacente a ideia da aproximação entre a Madeira, Canárias, Açores e Cabo Verde. O evento é organizado pelo Clube Naval de Ponta Delgada e a Associação dos Amigos do Mergulho e tiveram, excepcionalmente, a gentileza de suportar todos os custos inerentes à participação de Cabo Verde na prova.

Apesar da pouca expressividade da fotografia subaquática em Cabo Verde, enquanto actividade desportiva, foi possível encontrar um mergulhador disponível para vir representar Cabo Verde no referido evento. A pessoa a que me refiro chama-se Alain Hurtebize, nasceu em França mas já reside há mais de 20 anos em Cabo Verde para além da esposa ser cabo-verdiana.

Chegou ao meu conhecimento que o Senhor Director teve a miserável ideia de dizer que o Alain Hurtebize não pode representar o nosso país porque não é natural de Cabo Verde.

Permita-me o desabafo para lhe dizer que a sua atitude para além de andar muito perto de uma visão xenófoba ela contraria a nossa própria história enquanto país fortemente ancorado no fenómeno das migrações.
Sinto igualmente vergonha e, como eu, tenho a convicção que a maioria dos cabo-verdianos (dentro de fora) que uma pessoa com responsabilidades governativas tenha a coragem de dizer a um indivíduo que nasceu noutro sítio qualquer mas que já vive há mais de duas décadas em Cabo Verde não poder representar o nosso país

Fica esta nota como um contributo para um olhar mais atento sobre essas questões e que face à nossa história da emigração temos responsabilidades acrescidas na forma como recebemos e tratamos os que nasceram noutras paragens mas que estão entre nós para a construção de um Cabo Verde mais desenvolvido.

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