Uma morte ressucistada


1. Michael Jackson marcou uma geração e foram tantas as vezes que dançámos ao som do “Trillher”. Estávamos em 1984, dois anos depois de Michael Jackson ter lançado o disco “Thriller” e a minha mãe encontrava-se, na altura, nos Estados Unidos a concretizar o que viria a ser uma breve experiência migratória. Lembro-me das sucessivas cartas que cheguei a enviar, implorando um casaco do Michael Jackson dos States. Depois de muita insistência, a minha mãe lá se deixou convencer e, numa das férias dela em Agosto, trouxe-me o tão desejado presente. O casaco era o tal que Michael Jackson utilizara no vídeo da música “beat it” e tinha muitos fechos. Com aquele caso, ninguém na escola podia comigo. Um amigo meu, colega de carteira na Escola Domingos Ramos, situada no plateau na Cidade da Praia, tinha pedido à sua mãe, que também estava emigrada algures na costa leste dos Estados Unidos, um casaco do Michael Jackson. O dele era preto e o meu vermelho e, claro, tinham o mesmo número de fechos. Acho que não havia dia em que não usava o tal casaco de fechos e o que era engraçado nisso tudo é que quantos mais fechos melhor. Como o leitor facilmente poderá deduzir, Cabo Verde não é um lugar em que o casaco seja mesmo necessário. Mas eu não me importava e, à semelhança do que acontecia com os meus amigos, o excitante era mesmo usar um igual ao de Michael Jackson. Com quase 30° graus, lá estava eu, todo suado mas com o meu casaco igual ao do Michael Jackson. Claro que o tal casaco entrou na moda e não havia miúdo na altura que não gostasse de ter um. A segunda recordação e que ao que tudo indica ainda passeia pelos subúrbios da Cidade da Praia, é a de um jovem que, na altura, imitava o Michael Jackson. Os óculos, o cabelo e, claro, a forma de dançar convergiam numa imitação quase perfeita do Michael Jackson. Acho que o homem era convidado ou fazia-se de convidado em todas as festas, baptizados e afins e o serviço era expectável, dançar o “Trillher”. Mas em simultâneo com essa onda de admiração pelo Michael Jackson, chegavam notícias que nos davam conta de que ele, Michael Jackson, queria ser branco. Claro que isso significou um terrível golpe no sentimento de admiração que todos tinham por ele. O problema não foi tanto querer ser branco, mas a negação de ser negro, preto ou de cor. Para um miúdo, isso é confuso, muito confuso mesmo. Se calhar, a razão do Michael Jackson era meramente estética e constituía um “vipe” à artista. Mas não podemos secundarizar o efeito negativo, mesmo que simbólico, que esse episódio teve. De qualquer modo, o artista Michael Jackson sobreviveu. E isso aconteceu porque o homem é de facto um artista que marcou de forma particular o panorama musical mundial. O resto do percurso é do conhecimento de todos. Depois de meio século por cá, Michael Jackson foi-se embora. Apesar desse desaparecimento prematuro, ele marcou uma época e marcará a forma de encararmos a música pop. Depois do anúncio oficial da morte dele, foi fácil perceber a dimensão artística do Michael Jackson. Aliás, a morte é um excelente barómetro de popularidade. É pena que o mais interessado no assunto já não consegue perceber isso. Por isso, é que as homenagens e o respeito em vida são importantes. Todavia, e porque o Michael Jackson já estava mais ou menos esquecido do grande público e a dimensão artística dele foi abafada com sucessivos e tristes episódios pessoais, a sua morte veio relembrar a todos que o Michael Jackson é um artista ímpar.

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