If you can't fly then run, if you can't run then walk, if you can't walk then crawl, but whatever you do you have to keep moving forward.” Martin Luther King
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Os flagelados do vento de leste
Cabo Verde comemorou no passado dia 5 de Julho 34 anos de independência, e a propósito, vem-me à memória o percurso que os cabo-verdianos fizeram em pouco mais de 30 anos no sentido de fazerem de Cabo Verde um país capaz de olhar para o futuro com esperança. Mas nem sempre foi assim e o romance de Manuel Lopes (que viveu algum tempo na Ilha do Faial) retrata de forma particularmente bela, intensa mas, simultaneamente, dramática a agonia sobre a vida num arquipélago que, com as suas dez ilhas tentam contrair a presença humana. Nos momentos de euforia mas, também, da necessidade em repescar a esperança de quem vê a seca a atravessar a paisagem e de ver, angustiantemente, o céu azul e a procurar sem sucesso gotas de água para sobreviver, os Flagelados do Vento Leste ajuda-nos nessa empreitada; a empreitada de sobreviver e não deixar nunca, mas nunca morrer a esperança. É uma perspectiva subjectiva dos Flagelados do Vento Leste que retrata a sociedade e a Ilha de S. Vicente, vizinha de S. Antão e que a Cesária Évora a canta como “brasileirinho”. A Cesária Évora, ou simplesmente, “Cize” tem razão: S. Vicente, com as suas gentes que encaram o dia-a-dia de forma leve e descomprometida da vida alheia, uma ilha pequena mas com uma vivência urbana deliciosa de sentir e de viver dão sentido à expressão. Depois de 34 anos, podemos afirmar que Cabo Verde tem feito um percurso que nos orgulha a todos e sem fechar os olhos aos problemas que ainda precisam de ser resolvidos, existem razões para encarar o futuro com optimismo. Mas nem sempre foi assim, e Manuel Lopes (entretanto falecido) bem mereceria o Prémio Camões; entendeu muito bem e fez com que muitos, mesmo não sendo cabo-verdianos, entendessem o que é lutar contra uma natureza madrasta. A minha avó, nasceu na Ilha do Fogo. Por ter um Vulcão, ficou arraigado na crença popular que as mulheres e os homens da Ilha do Vulcão são como os vulcões, no pior e no melhor sentido. No Fogo, a água é, também, uma raridade. Lembro-me dela contar que andava mais 50 km à procura de 25 litros de água. Cabo Verde já não é o que era e o futuro depende dos Homens, mesmo com os tormentos dos ventos.
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