Os flagelados do vento de leste

Cabo Verde comemorou no passado dia 5 de Julho 34 anos de independência, e a propósito, vem-me à memória o percurso que os cabo-verdianos fizeram em pouco mais de 30 anos no sentido de fazerem de Cabo Verde um país capaz de olhar para o futuro com esperança. Mas nem sempre foi assim e o romance de Manuel Lopes (que viveu algum tempo na Ilha do Faial) retrata de forma particularmente bela, intensa mas, simultaneamente, dramática a agonia sobre a vida num arquipélago que, com as suas dez ilhas tentam contrair a presença humana. Nos momentos de euforia mas, também, da necessidade em repescar a esperança de quem vê a seca a atravessar a paisagem e de ver, angustiantemente, o céu azul e a procurar sem sucesso gotas de água para sobreviver, os Flagelados do Vento Leste ajuda-nos nessa empreitada; a empreitada de sobreviver e não deixar nunca, mas nunca morrer a esperança. É uma perspectiva subjectiva dos Flagelados do Vento Leste que retrata a sociedade e a Ilha de S. Vicente, vizinha de S. Antão e que a Cesária Évora a canta como “brasileirinho”. A Cesária Évora, ou simplesmente, “Cize” tem razão: S. Vicente, com as suas gentes que encaram o dia-a-dia de forma leve e descomprometida da vida alheia, uma ilha pequena mas com uma vivência urbana deliciosa de sentir e de viver dão sentido à expressão. Depois de 34 anos, podemos afirmar que Cabo Verde tem feito um percurso que nos orgulha a todos e sem fechar os olhos aos problemas que ainda precisam de ser resolvidos, existem razões para encarar o futuro com optimismo. Mas nem sempre foi assim, e Manuel Lopes (entretanto falecido) bem mereceria o Prémio Camões; entendeu muito bem e fez com que muitos, mesmo não sendo cabo-verdianos, entendessem o que é lutar contra uma natureza madrasta. A minha avó, nasceu na Ilha do Fogo. Por ter um Vulcão, ficou arraigado na crença popular que as mulheres e os homens da Ilha do Vulcão são como os vulcões, no pior e no melhor sentido. No Fogo, a água é, também, uma raridade. Lembro-me dela contar que andava mais 50 km à procura de 25 litros de água. Cabo Verde já não é o que era e o futuro depende dos Homens, mesmo com os tormentos dos ventos.

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