O exotismo do voto obrigatório?

Nestes últimos dias, o Presidente do Governo e líder dos socialistas tem sido tratado como uma ave rara por ter defendido a obrigatoriedade do voto.
Eu sou favor do voto obrigatório, apesar de reconhecer que face ao dramático cenário que temos actualmente a nível de participação política e da própria credibilização dos seus protagonistas, tornar o voto obrigatório não é, por si só, suficiente. Por outras palavras, parece-me que o problema não está só na abstenção, mas sim na própria relação dos políticos e da política com a população. Tentando ser ainda mais objectivo, diria que a alienação das pessoas é uma das consequências do estado deplorável em que se encontra o relacionamento entre a política e os cidadãos. Neste sentido, só o voto obrigatório não chega; é necessário alterar as regras do jogo e ir ao encontro das suas verdadeiras causas. Uma das coisas que penso que seria importante concretizar, efectivamente, é uma maior abertura dos partidos políticos à sociedade, sobretudo, os que até agora têm alternado no poder, já que esse problema me parece mais preocupante junto do PS e PSD. Não falo na abertura a nível de retórica em que todos estão de acordo. Acredito ainda que os líderes partidários querem e anseiam que os seus partidos sejam efectivamente mais abertos e em permanente sintonia com os anseios e dificuldades das pessoas. No entanto, tenho a sensação de que no meio dos partidos políticos existem umas mãos invisíveis e que filtram à entrada o contributo de pessoas em função de lógicas estritamente partidárias e de manutenção do status quo.
Não bastam só as palavras, precisamos de acções. Aliás, o sociólogo António Barreto num discurso muito cirúrgico e pedagógico, aquando das comemorações do Dia de Portugal, chamou atenção para o facto de que da parte dos políticos já não bastam só discursos eloquentes e recheados de boas intenções. O país (entenda-se, também, os Açores) precisa é de exemplos. Vale a pena tomar atenção às palavras de António Barreto. De qualquer forma e voltando ao voto obrigatório, reforço a ideia de que transformar um direito numa obrigação pode ser um tratamento de choque e, se calhar, precisamos mesmo disso. Tendo em conta o contexto catastrófico que temos tido ao nível de participação política, a hipótese do voto obrigatório tem de ser, no mínimo, discutida. Chamo a atenção para o facto de mais de duas dezenas de países terem o voto obrigatório. Pervenche Bères, Presidente da Comissão Económica e Monetária, numa entrevista recente defendeu a necessidade de se abrir a discussão sobre o voto obrigatório. Por isso, a tese do Carlos César não pode ser entendida como algo lunático, mas sim como uma proposta credível que pode ajudar-nos a sair deste cenário de completa alienação das pessoas para a vida política. Para os que subscrevem a ideia da liberdade individual, julgo que com o voto obrigatório a perda da liberdade individual seria incomparavelmente menor com o ganho colectivo que essa medida terá em muitos aspectos, nomeadamente, na valorização e credibilização do sistema democrático. Todavia, tenho a convicção de que é ilusão pensar que o voto obrigatório pode tornar um indivíduo politicamente activo e participativo. Pode é ser um contributo para contrair os actuais níveis de abstenção.

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