A gripe H1 dos deputados açorianos (alguns)

Nas últimas três semanas fomos confrontados pela comunicação social com alguns problemas que devem merecer a devida atenção dos nossos decisores políticos que, pelos vistos, andam preocupados (pelo menos alguns) com os touros.
A primeira notícia tem a ver com a taxa de gravidez na adolescência na qual a Região está no pelotão da frente a nível nacional, ou seja, temos uma taxa que é sensivelmente o dobro da nacional. Temos de ser absolutamente claros neste aspecto: uma elevada taxa de gravidez na adolescência está associada aos problemas de pobreza, na medida em que os seus protagonistas encaixam-se genericamente dentro do perfil de baixa escolaridade, abandono precoce do sistema de ensino e de famílias de baixos rendimentos, etc. Para além disso, tenho a convicção que o aspecto mais grave desses dados, relaciona-se com a real possibilidade da reprodução desses problemas e das respectivas debilidades, dos pais para os filhos. Diz-nos a realidade que uma das causas do abandono escolar tem a ver com a pouca ou nenhuma valorização da escola por parte dos pais o que, significa, como uma hipótese plausível, que os filhos de pais adolescentes, irão quase certo enfrentar os mesmos problemas e contribuírem para o aumento desses índices preocupantes. Sabemos ainda que esses problemas têm nas suas explicações processos estruturais e de mentalidade que não se alteram da noite para o dia. Os Açores, são hoje, uma região, incomparavelmente melhor do que à décadas atrás. Apesar disso, precisamos urgentemente, de (re)centrar seriamente o desenvolvimento nas pessoas, tarefa seguramente mais difícil e de resultados pouco visíveis, pelo menos, a curto e longo prazo. Como a actuação política, gosta de resultados mais imediatos a coisa torna-se mais complicada.

A segunda notícia e que até certo assume pontos de contacto com a primeira, tem a ver com o número das infecções de HIV-Sida na Região, que na génese do seu crescimento encontra-se a questão comportamental e de educação sexual. Por ser uma região pequena, facilmente passamos de 8 para 80 e, por isso, vale a estar atento e encarar essas questões numa perspectiva mais abrangente e não numa óptica exclusivamente de saúde no sentido mais restrito.
A terceira notícia, que na sua génese e interpretação é péssima para a região, prende-se com as alertas preocupantes deixadas pelo Conselho Médico dos Açores da Ordem dos Médicos, a propósito da actual situação da saúde nas ilhas e da inexistência de um planeamento de saúde nos Açores. O Secretário da tutela reagiu, como aliás seria expectável, contrariando as declarações do responsável da ordem nos Açores. No entanto, é preciso ir mais além, ou seja, é preciso que fique bem claro se a região tem ou não um planeamento da Saúde e quais são os seus resultados concretos. É preciso ter em consideração que as críticas não foram feitas por “treinadores de bancada” mas sim por profissionais da área e, por isso, devem ser levados em devida conta e fazer os ajustes necessários.
Enquanto a região têm problemas que urgem respostas adequadas, os nossos deputados ou melhor (para não ser injusto), alguns deputados, aproveitando as novas faculdades proporcionadas pela Revisão do Estatuto Político-Administrativo, o primeiro diploma que é produzido é sobre a sorte da vara nos Açores. Para além das óbvias discordâncias que existem sobre o tema, acho no mínimo surreal que a primeira coisa que alguns deputados entendem fazer é legislarem sobre a possibilidade de torturem um animal em nome da diversão de alguns. Perante isso, fico mais animado pensar que alguns deputados foram apanhados na teia de uma febre que ainda ninguém descobriu mais que atrevo de apelidar de H1. Como todos calculam a actuação política é feita, também, com simbolismo.

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