Vale a pena chorar pelo presidente?




Com o assassinato do Nino Vieira, a Guiné Bissau deu, uma vez mais, a prova de que tem todas a condições para não funcionar. Infelizmente, para todos nós. Inclusive para muitos açorianos que sei que lá estiveram no período colonial e que muitos deles guardam as melhores recordações. Nas conversas que vou tendo com alguns guineenses e outras pessoas que seguem de perto a realidade daquele país, percebo que é cada vez mais visível o desânimo, a incerteza e a consciência do fracasso da Guiné Bissau, enquanto tentativa de construção de um país democrático e com um mínimo de possibilidades de desenvolvimento. Se Amílcar Cabral estivesse vivo o que ele pensaria disso tudo? O que ele pensaria, do país pelo qual deu a sua própria vida, pela independência e pela edificação do seu próprio destino, e que 34 anos depois está ainda mergulhado num autêntico caos que só tende a piorar. Amílcar Cabral nasceu na Guiné -Bissau e foi um dos intelectuais mais brilhantes que o continente africano já produziu e acreditava na possibilidade de uma união forte entre Cabo Verde e a Guiné-Bissau.
Ficava, sinceramente, menos apreensivo se o assassinado do Nino Vieira fosse um acto isolado, concretizado por um indivíduo motivado por convicções próprias. Mesmo se fosse um golpe de Estado a situação era menos gravosa do que o contexto em que Nino Vieira foi assassinado. Não podemos esquecer que foi um grupos de militares que assassinou um Chefe de Estado por razões que ainda ninguém conseguiu explicar convenientemente. O que está em cima é um acerto de contas, fruto do passado do Nino Vieira e da sua relação com os militares. O assassinato de Ansumane Mané, em 2000, constitui mais um exemplo do poder bárbaro que é exercido pelos militares guineenses, não sendo abusivo dizer que quem está ditar as regras na Guiné Bissau são os senhores dos uniformes.
De qualquer modo, Nino Vieira, estava a preparar este seu desfecho que teve o início, no regresso dele, em 2005, à Guiné Bissau, depois do exílio em Portugal, com permanências regulares na casa do insuspeito Valentim Loureiro. O regresso de Nino Vieira não tinha vantagens nenhumas para os guineenses e nem para ele próprio como, aliás, está confirmado.
A complicar as coisas, a Guiné Bissau tornou-se num importante ponto de passagem da droga da América Latina para Europa, juntando o poder dos militares com o dos traficantes a mistura é no mínimo explosiva. Quando um avião aterra num determinado país com toneladas de droga e ninguém se responsabiliza(aconteceu no ano passado) não é preciso dizer muito mais.
A situação da Guiné-Bissau é tão catastrófica que é muito fácil apontar as situações improváveis que vão acontecendo por lá.
No entanto, importa perceber quais são as reais hipóteses de contrariar a tendência de fracasso agudo da Guiné-Bissau, sendo certo que quem sofre as consequências são os guineenses que vivem na mais absoluta miséria.
O assassinato do Nino Vieira representa ainda mais uma machadada na CPLP até porque é a Guiné-Bissau que está a presidência neste momento.
O interessante disso tudo é o silêncio ou, melhor as palavras dentro do politicamente correcto, que são utilizadas pela classe política, nomeadamente, em Portugal. Poucos quiseram falar sobre o assunto e os que o fizeram foi no anonimato ou com termos muitos suaves.

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