A crise de uns e de outros

Falei, hoje, com a minha mãe ao telefone. Reformou-se da administração pública, depois de 35 anos a trabalhar na Direcção Geral do Comércio, em Cabo Verde. Lembro-me que em miúdo, ia com ela para o trabalho. Ia quase todos os sábados. Sim, naquela altura a função pública trabalhava aos sábados. Ah, também ia com ela, aos domingos. Íamos duas vezes: às 7h45 da manhã e às 18h00. Não era todos os domingos, já que ela alternava com as suas outras colegas. Iam içar a bandeira de manhã e arriá-la no final da tarde. Gostava daquilo. Lembro que a bandeira de Cabo Verde era igual à da Guiné Bissau. Dividida em três partes, duas faixas na horizontal (amarelo e verde) e uma na vertical (vermelho). Na parte vermelha vinha lá uma estrela negra, uma espiga de milho e mais outras coisas que agora não me ocorrem. Depois de 1991, altura que os cabo-verdianos começaram a respirar e a viver a democracia, depois de 15 anos do regime de partido único, mudamos a bandeira, o símbolo e o hino, que também, até então era igual ao da Guiné Bissau. Houve um concurso, amplamente divulgado, para a escolha dos novos símbolos na nação cabo-verdiana. Hoje, Cabo Verde, tem uma nova bandeira: azul com faixas vermelhas e brancas e no centro 10 estrelas amarelas correspondendo a todas as ilhas que compõe o arquipélago.
Voltando à Direcção Geral do Comércio. Acho que todas as crianças gostam de acompanhar os pais para o trabalho. Fui crescendo, deixei de acompanhar a minha mãe no içar da bandeira, mas continuei a ir ao trabalho dela nas horas de expediente e, claro, fui-me apercebendo melhor como é que as coisas funcionavam. Lembro-me de alguma coisas, que para a maior parte dos leitores, possam parecer um pouco estranhas. Hoje, Cabo Verde tem um acordo com Portugal que permite que o escudo cabo-verdiano tenha uma paridade fixa como euro. Alguns anos atrás, a licença de importação era limitadíssima e mesmo para os que tinham a tal licença não poderiam faze-la de qualquer maneira, pois, estavam condicionados à disponibilidade de moeda estrangeira no único Banco de então que, como podem deduzir, era público. Também sou do tempo da EMPA (Empresa Pública de Abastecimento) que detinha o monopólio para a importação e comercialização. Era fantástico trabalhar na EMPA. A empresa foi, todavia, fechada e, hoje, muitos antigos funcionários ainda estão a reivindicar junto do governo alguns direitos que não foram salvaguardados. De repente, corria a informação de que o açúcar “ dja dâ nó”. Significava que o stock já tinha terminado e que nas semanas seguintes muita gente iria ficar sem açúcar. Outras vezes era o óleo, farinha etc.
Comer maçã importada era um pequeno luxo. Ficávamos na fila, durante longos e angustiantes minutos, para comprar num dos estabelecimentos geridos pela EMPA um quilo de maçãs de Lisboa. Isso foi há pouco mais de duas décadas e ainda bem que foi passado e, como é expectável acontecer, quantos mais recuarmos no tempo mais episódios inacreditáveis aparecerão, pelo menos, à luz das nossas perspectivas actuais. Hoje, Cabo Verde é um país diferente e transpira confiança e credibilidade.
Cá estamos hoje perante a crise. É inegável que estamos perante uma crise mundial, cujos contornos e amplitude ninguém sabe exactamente responder. Para além da crise real, temos de somar a crise de confiança que é, sempre, complicada gerir. Estou a crer que só com uma intervenção cuidada mas vigorosa e credível dos governos será possível repor a confiança dos consumidores. Existe, no entanto, o perigo real para a eminência das políticas proteccionistas, tendo eu a consciência que, à primeira vista, constitui a forma mais rápida de ultrapassar a crise. Puro engano. O modelo de sociedade que temos está, irreversivelmente, assente na ligação e interdependência entre nações. Por isso, as respostas têm, obrigatoriamente, de serem encontradas neste contexto global. Essa lógica é aplicável tanto nos produtos e serviços como nos recursos humanos.
Artigo Publicado no Jornal " Terra Nostra" - 18-02-09

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