Dar com uma e tirar com outra

Falar de religião é sempre muito complicado. O tema é melindroso, pois para além mexer com as convicções profundas e a fé de cada um de nós as instituições religiosas têm um peso e influência brutal nas nossas sociedades. É uma constatação e não a emissão de nenhum juízo de valor. Ontem, o D. José Policarpo, um homem que, pessoalmente, acho muito inteligente, emitiu um recado para as jovens portuguesas que pretendem cair, perdidamente, de amores, nos braços dos muçulmanos: “ cautela com os amores. Pensam duas vezes em casar com um muçulmano”. O D. José Policarpo, ironizando, até meteu o Alá no barulho: “ é um monte de sarilhos que nem Alá sabe é que acabam”. Muitas pessoas não ficaram satisfeitas com esta afirmação a começar pelo próprio Alá, na hipótese de ele ter escutado tais afirmações Salvaguardando o contexto que essas afirmações foram proferidas, entendo-as como infelizes e inoportunas, por colocar todos os muçulmanos sob o mesmo tecto.
Portugal tem uma situação relativamente pacífica na questão do diálogo inter-religioso. Para além do peso estatístico pouco significativo que a população islâmica assume entre nós (entre 30 a 35 mil), no conjunto das populações imigrantes e dos seus descendentes não verificamos grandes contrastes com a sociedade portuguesa. Equivale afirmar que, apesar do peso crescente dos imigrantes e dos seus descendentes na sociedade portuguesa (o primeiro grupo representa 5%) não existem diferenças culturais abismais e que coloquem em causa a paz social e uma boa convivência entre as várias culturas e religiões. A tensão que se vive, por exemplo, em França, reforça essa convicção sobre a realidade portuguesa. Mesmo o posicionamento do líder religioso da comunidade islâmica em Portugal, o skeik David Muni, que ainda não se pronunciou sobre as palavras do D. José Policarpo, revela um espírito muito tranquilo dessa comunidade em Portugal.
Julgo que um dos grandes desafios que temos pela frente é a nossa capacidade em gerir de forma saudável o diálogo inter-religioso. Aliás, atrevo-me a dizer que a estabilidade mundial nos próximos tempos estará muito dependente desse diálogo que deverá alicerçar em duas coisas importantes: no conhecimento mútuo e na capacidade de colocar de lado as generalizações.
Devido às minhas andanças no mundo associativo, tenho dois amigos muçulmanos que residem no continente. O mais velho, a uma mulher é, também, muçulmana e, por isso, não acarreta preocupações para o D. José Policarpo. O segundo amigo, é mais novo e namora com uma portuguesa. Também esse, é um muçulmano pacífico e tem um relacionamento exemplar com a namorada. Também aí o D. José Policarpo deverá ficar tranquilo.
Porventura esses dois amigos são excepções e todos nós sabemos de histórias macabras e de autênticos sarilhos de que muitas mulheres são alvos, em nome do Islão. Estamos a falar de extremistas e com esses não vale pena estarmos com paninhos quentes.
No entanto, a prática islâmica não se resume ao extremismo e tomar a parte pelo todo, é perigoso e pode colocar em causa as bases para existência de desejável diálogo entre as várias religiões. Os extremistas, de qualquer religião ou de qualquer causa, constituem, sempre um problema e os extremistas islâmicos têm, de facto, representado um obstáculo real para a existência de uma paz duradoura em muitas partes do globo e são autênticas bombas atómicas no que diz respeito aos Direitos Humanos.
De qualquer modo, os ecos das palavras são proporcionais ao peso e a responsabilidade de quem as pronuncia. Face ao peso inquestionável que a religião católica tem em Portugal, deveria haver uma prudência. Mesmo que, como hipótese, o D. José Policarpo ter tido o que todos pensam e que é politicamente incorrecto afirmar, violência com violência é quase, sempre um caminho, com maus resultados.

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