Aquela última prenda

Gosto no Natal. Agrade-me ver as pessoas, de andar apressado nos centros comerciais à procura daquela última prenda. Gosto de ver a felicidade estampada na cara das pessoas que de passos apressados e acompanhadas dos cânticos de natal, meticulosamente escolhidos, procuram aquela prenda para os familiares e amigos.
Dedico, no entanto, este artigo às pessoas que, por um conjunto de razões, sei que dificilmente vão lê-lo. São aquelas pessoas que não têm um lar e nem fazem correr ninguém nos centros comerciais para comprar aquela última prenda.
Porque é natal e apesar de ter alguém a correr por eles algures para comprar a última prenda este artigo é também para eles. Para o António Paraíso. Tem 35 anos é brasileiro com sotaque nordestino. Entrou em Portugal há um ano, via Espanha. Trabalha da construção civil e vive nos Açores há 6 anos. No início do ano foi comprar um bilhete, às prestações, para ir ver a mulher e os dois filhos que ainda vivem no Brasil. Queria viajar no Natal. A agência onde comprou o bilhete abriu falência e o Natal do António Paraíso foi, literalmente, à vida. O António Paraíso foi um daqueles que estava a correr nos corredores do Centro Comercial para comprar aquela última prenda. Ironicamente estava a correr no mesmo corredor onde funcionava a agência que lhe estragou o Natal.
Este artigo é para também para Oksana. É ucraniana e vive há 5 anos nos Açores. Foi professora de Matemática durante mais de 15 anos na sua cidade natal, Betz, que se situa na parte oeste da Ucrânia, próxima da fronteira com a Polónia. O marido, também, ucraniano, andou a correr para comprar a última prenda. A Oksana espera que no Natal do próximo ano possa estar a partilhar a experiência com a sua família de ser professora de matemática nos Açores. A Oksana está à espera, há mais de 12 meses, da sua equivalência. Enquanto espera, vai ganhando a vida a limpar, entre outros lugares, os corredores que servem para comprarmos aquela última prenda.
Este artigo é para paquistanês Abhijat que está à espera há mais de um ano de uma resposta do Consulado Português no Paquistão sobre um documento que é necessário autenticar para conseguir trazer o irmão mais novo.
Também este artigo é para o Djaló, natural do país dos Bijagós; país que não obstante das esperanças que todos nós depositamos não consegue dar o tal salto. Um país que ainda não tem os tais corredores para que as pessoas possam comprar aquela prenda. Tem, claro, outros corredores. O Djaló queria que a estabilidade do seu país minimamente para poder regressar e ir comprar na Guiné aquela prenda.
O artigo é para todos nós. Todos nós temos as nossas dificuldades, as nossas angústias mas, sobretudo, as nossas esperanças e desejos. Espero que este Natal possa ser mais uma luz de esperança para todos. Que neste Natal e nos seguintes possamos todos, independentemente da origem, da cor e religião, concretizar os nossos desejos.
Os meus sinceros votos de um Santo Natal e de um ano novo repleto de felicidades.

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