Governar à vista

Governar à vista


Um dos grandes problemas da actividade política é que se perde demasiado tempo em lidar com assuntos de gabinete, com burocracias desnecessárias e politiquices. As coisas verdadeiramente importantes e estratégicas para o desenvolvimento ficam, quase sempre comprometidas porque a governação é feita, quase sempre, à vista. Existe, um conjunto de hipóteses que explicam essa tal governação à vista, ou se quisermos, a ausência da governação estratégica: A primeira e, a mais óbvia, é que qualquer político almeja conquistar e renovar o poder, sendo que esse poder é conquistado com base numa retórica convincente e na obra feita. O problema é que a apresentação de resultados imediatos é, muitas vezes, incompatível com um planeamento estratégico, cujos resultados são só visíveis a médio e a longo prazo. A segunda hipótese e, como consequência da primeira, é que os governantes perdem muito tempo com assuntos urgentes e não com coisas verdadeiramente importantes. Essa urgência é muitas vezes artificial, ou seja, é resultado de pressões mediáticas ou de sectores da sociedade, em que o poder político vai sempre atrás. Cito um exemplo: há poucos meses, todos nós tivemos a percepção que um dos grandes problemas que o país estava a atravessar relacionava-se com a criminalidade. Essa prioridade só aconteceu porque a comunicação social ditou essa mesma prioridade, tornando-a, por conseguinte, num problema urgente. Enquanto se perdia tempo em procurar respostas para um problema “ urgente” as coisas estratégicas iam ficando pelo caminho.
A terceira hipótese é a que a governação é feita de forma muito fechada, assente em pressões locais que, frequentemente, entram em contradição com os interesses mais globais. Somando todas as hipóteses ficamos com um exercício político em que, para além de serem maioritariamente de pendor cosmético, não favorecem à emergência de soluções inovadoras. Acredito, no entanto, que isto é um problema que aflige muitas sociedades mas que no caso português essa navegação têm consequências mais graves e importa, em conjunturas de crise, semelhante à que estamos a viver, concretizar um pensamento estratégico para o País. Reparem que esta ausência de pensamento estratégico é assumida por vários actores que têm ou já tiveram grandes responsabilidades políticas (ex: Marques Mendes no seu recente livro).
O diagnóstico é aplicável para a nossa realidade regional. Os Açores têm um conjunto de desafios pela frente em que se exige um pensamento estratégico e de antecipação, já que em situação de uma crise aguda são as regiões mais frágeis e de menos recursos que pagam facturas mais elevadas. O desenvolvimento sustentado e minimamente equilibrado entre as várias ilhas, a desertificação das ilhas mais pequenas e de menor atractividade, o ângulo correcto de desenvolvimento do turismo, a diminuição da pobreza, a rentabilização do papel geoestratégico dos Açores, constituem alguns dos assuntos que impõem um pensamento estratégico, transversal e inovador.

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