A apatia dos açorianos

Pode ser incómodo dizê-lo e mesmo repetitivo, mas as eleições regionais vieram comprovar, entre outras coisas, a apatia dos açorianos face à política, partindo do pressuposto de que a participação nos actos eleitorais constitui uma dimensão central dessa mesma participação política. Está longe de ser um problema exclusivo dos Açores, mas é mau para a democracia quando metade dos eleitores (53,24%) ficaram em casa num momento importante de afirmação democrática. No entanto, um dos argumentos que os estudiosos da participação política apontam para explicarem a apatia dos cidadãos face à vida política é a descrença no sistema político e no afastamento dos políticos com os cidadãos. Este último argumento é relativamente compreensível, por exemplo, em países de grandes dimensões, em que a aproximação entre os eleitos e eleitores é sempre mais complicada de contrair. Nos Açores, esta fraca participação para além de assentar em explicações generalizáveis para outros espaços tem um dado curioso, na medida em que estamos perante um pequeno espaço insular e arquipelágico (com 192956 inscritos nos cadernos eleitorais), em que a proximidade que existe deveria contribuir para uma participação política mais activa e não o contrário. Se contabilizarmos com os jovens que ainda não fizerem o recenseamento, o número de pessoas que, efectivamente, não votam, ganha uma dimensão ainda mais grave. A apatia política é um autêntico cancro para a democracia e por isso não nos podemos lembrar do problema apenas nos momentos eleitorais. Vale a pena, por isso, que nos próximos tempos se desenvolva um projecto concreto no sentido de contrariar esta tendência. Para além disso, os políticos têm outras ferramentas que vale a pena, pelo menos, discutir. No Brasil, por exemplo, o voto é obrigatório e a não participação nos momentos eleitorais sem uma justificação prévia e plausível é passível de punição. O que é interessante é que a discussão do voto passar a ser facultativo no Brasil já está a ser feita. O facto é que o voto obrigatório tem, também, uma dimensão discutível, ou seja, poderá ser entendido como um acto mais democrático e que reflecte de forma mais genuína a vontade do eleitor. Não votar é passível de ser entendido como um direito fundamental do cidadão na democracia representativa e o argumento não é de todo desprezível, tendo em conta que o eleitor pode entender que a melhor forma de dizer que já não acredita no sistema é não votar. O voto em branco poderá ser uma forma de expressar a concordância com o sistema mas o não-alinhamento com nenhuma força ou candidato.A nota que importa ser sublinhada é que é preciso medidas radicais para tentar inverter a apatia dos açorianos face à política, o que implica, antes, perceber as motivações das pessoas. As hipóteses e as respostas do senso comum tendem a predominar enquanto factores explicativos, mas as instituições com responsabilidade nesta matéria devem ajudar-nos a esclarecer essas dúvidas. Em relação aos resultados, apesar de Carlos César ter tido mais uma confiança dos açorianos para os próximos quatros anos terá a difícil tarefa de arrumar a casa no sentido de criar as condições para a emergência de um novo líder dos socialistas açorianos. Não será fácil, mas a liderança de Carlos César será avaliada no futuro, para além do trabalho desenvolvido pela capacidade que teve ou não em criar espaços para a emergência de alternativas de liderança. Vamos lá ver as coisas como é que correm, numa altura em o PSD ficou, mais uma vez, sem líder e parece-me que os dados apontam para a entrada de Berta Cabral.A pluralidade da Assembleia Legislativa será, claramente, um ganho para o debate político regional. Para além de um excelente resultado do PP, a líder do Bloco de Esquerda ficou, ela própria, surpreendida com a eleição de dois deputados. Os votos é que contam, mas o percurso do BE-Açores não permitia de todo vislumbrar esse resultado; e também com o PCP, de regresso ao trabalho, os resultados do parlamento serão mais plurais e para melhor.

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