Campanha Política nos Açores: Déjà Vu?


Um dos momentos mais excitantes mas, igualmente, mais aflitivo do jogo democrático, é a campanha eleitoral. Se, por um lado, é altura em que as pessoas são chamadas a exercerem o seu direito de voto, por outro, são confrontadas com algumas propostas sobre as quais ninguém diz (salvo honrosas excepções) como e com que meios pensam concretiza-las. É insuficiente o mero exercício de diagnóstico do problema. Os candidatos aos cargos políticos têm, obrigatoriamente, de ir mais além apresentando soluções concretas e as vias para lá chegar. Ouço propostas provenientes de todos os quadrantes e fico sem saber exactamente qual é o caminho estratégico dos Açores que os candidatos se propõem liderar para os próximos tempos. Fico sem saber o que pensam que será as mais valias da Região daqui a 10 ou 20 anos, bem como o papel que as ilhas açorianas podem a vir desempenhar em Portugal, na Europa e mesmo no mundo. Fico, todas as vezes que acompanho os momentos eleitorais, na incógnita sobre uma visão estratégica para os Açores que, é infelizmente, substituída por propostas e discussões de medidas avulsas e que em nada nos ajudam a acreditar no caminho que nos é proposto.
Não quero com isto dizer que não é importante discutir mais e melhor acesso à saúde para as pessoas, melhor educação ou mais rendimentos para as empresas e famílias, transportes mais eficientes e menos dispendiosos para o cidadão. São propostas expectáveis e penso que uma das causas que têm determinado o afastamento das pessoas da vida política é essa excessiva previsibilidade das propostas e, paradoxalmente, o desacreditar das pessoas que, ainda assim, os políticos não conseguem cumprir as tais propostas expectáveis. Precisamos de inovar as respostas para os problemas que, na sua aparência são imutáveis mas que nas suas causas e consequências se alteram permanentemente. Por isso, é importante saber o que é queremos que essas ilhas sejam a médio e a longo prazo e, consequentemente, do caminho que temos de fazer para lá chegar. Para além de ter esta noção bem presente é preciso saber passar esta mensagem de mudança e de visão estratégica. O futuro não pode e, nem deve, esgotar-se nos próximos quatro anos e parece-me que toda a lógica da campanha eleitoral baseia-se, de forma excessiva, em questões que não são estruturais.
Apesar dos Açores estarem a atravessar uma fase inquestionavelmente positiva e estimulante a vários níveis, com consequência, da integração no espaço europeu mas obviamente, da governação nos últimos anos, ainda persistem algumas debilidades estruturais que não resolvidas, podem comprometer o desenvolvimento que todos nós almejamos.
Para além de estarmos perante um mercado muito pequeno o desenvolvimento verificado nos Açores é extremamente desigual entre as nove ilhas. A actividade económica está concentrada, essencialmente, nas ilhas de São Miguel e Terceira (cerca de 4/5 concentra-se nas duas ilhas). As perspectivas de redução de números de jovens nos próximos vinte anos são reais, sendo que são nas ilhas mais pequenas que as consequências são mais preocupantes. Mas, também, e apesar da melhoria do nível de escolaridade dos açorianos, a maior percentagem dos activos na região têm níveis de escolaridade igual ou inferior ao 3º ciclo. Os dois primeiros dados servem-nos como alerta de que precisamos de respostas inovadoras para, por um lado, minimizar o efeito da desertificação humana e da pouca atractividade que algumas ilhas apresentam e, por outro, sem prejudicar as ilhas com maior potencialidades encontrar equilíbrios entre no conjunto do arquipélago.
É claro que reconheço que essas respostas não são fáceis de serem encontradas mas não debater o problema da desertificação e do envelhecimento populacional de algumas ilhas é um erro. O desenvolvimento só é possível com pessoas; podemos ter a região mais fantástica do mundo mas sem as pessoas não vamos a lado nenhum.
Por isso, e voltando às propostas expectáveis, é relevante que nesta campanha sejam discutidas e apresentadas propostas que vão para além do óbvio e que encarnam um visão estratégica dos Açores. Mas isso não é um problema dos exclusivo dos Açores.

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