If you can't fly then run, if you can't run then walk, if you can't walk then crawl, but whatever you do you have to keep moving forward.” Martin Luther King
domingo, 19 de outubro de 2008
Ainda existem pobres??
Comemora-se amanhã o Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza. Deduzo que a data não tenha interesse para muitos até porque morrer à fome nos dias que correm é algo que raramente acontece. Pelo menos, dirão alguns os mais distraídos. Vale reter alguns números: 900 milhões de seres humanos não têm capacidade para as necessidades primárias de sobrevivência diária, seis milhões de crianças morrem de fome e outros 161 sofrem de subnutrição crónica. Perto de 1/6 da população mundial vive com menos de 0,70 euros por dia, valor muito inferior aos 20 milhões de vacas que recebem diariamente de subsídio na Europa (2,00 euros por dia); que os Estados Unidos despenderam com a Defesa, em 2006, mais de 400 mil milhões de dólares. A fome, poderiam dizer alguns, é problema deles. Dos países corruptos, dos estúpidos dos governantes, na sua maioria africanos, que não sabem fazer outra coisa senão contribuir para empobrecer os seus concidadãos. Todavia, e por causa das relatividades dessas questões não resisto a partilhar a passagem de uma crónica de Eça Queirós (citado há pouco tempo por José Saramago) que aborda uma reunião familiar, só mulheres, sendo que umas iam fazendo bordados e uma outra ia lendo o jornal em voz alta, dando informações às restantes. A primeira notícia que ela leu foi sobre a inundação na China em que morreram milhares de pessoas, não despertando em nenhuma delas nenhum tipo de choque; a seguir partilhou com os familiares outras notícias, igualmente, trágicas mas que aconteceram em paragens longínquas e o comportamento é precisamente o mesmo. Por último, há uma pequena notícia que refere que a prima Joaquina caiu e torceu e tornozelo. A notícia despertou, logo, uma onda de emoção em todas as presentes. Isso para dizer que quando ouvimos que 6 milhões de crianças morrem de fome anualmente, percepcionamos essa tragédia como algo abstracto. Todavia, deveria haver uma solidariedade civilizacional em que fosse proibido que alguém morresse a fome. Bono, disse a propósito da actual crise financeira: “ existem 700 mil milhões de dólares para salvar o Wall Street da bancarrota mas não existem 25 mil milhões para salvar 25 mil crianças de morte certa todos os dias, então eu chamo a isso bancarrota moral”. Não poderíamos estar mais de acordo e essa resposta rápida e pujante que os países mais ricos estão a conferir para travar os efeitos desta crise financeira, comprova uma coisa muito simples: que se houvesse vontade genuína dos mais ricos, a pobreza extrema, a falta de comida, o equilíbrio ambiental ou mesmo os objectivos do milénio já estavam resolvidos; A culpa é, inquestionavelmente, dos governos e dos políticos mas, também, da própria sociedade civil (que somos todos nós) que ficamos parados a ver tamanha hipocrisia. Ficamos como as primas da Joaquina, preocupados com coisitas e as que verdadeiramente devem merecer a nossa atenção nem estamos aí.
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