Ainda existem pobres??

Comemora-se amanhã o Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza. Deduzo que a data não tenha interesse para muitos até porque morrer à fome nos dias que correm é algo que raramente acontece. Pelo menos, dirão alguns os mais distraídos. Vale reter alguns números: 900 milhões de seres humanos não têm capacidade para as necessidades primárias de sobrevivência diária, seis milhões de crianças morrem de fome e outros 161 sofrem de subnutrição crónica. Perto de 1/6 da população mundial vive com menos de 0,70 euros por dia, valor muito inferior aos 20 milhões de vacas que recebem diariamente de subsídio na Europa (2,00 euros por dia); que os Estados Unidos despenderam com a Defesa, em 2006, mais de 400 mil milhões de dólares. A fome, poderiam dizer alguns, é problema deles. Dos países corruptos, dos estúpidos dos governantes, na sua maioria africanos, que não sabem fazer outra coisa senão contribuir para empobrecer os seus concidadãos. Todavia, e por causa das relatividades dessas questões não resisto a partilhar a passagem de uma crónica de Eça Queirós (citado há pouco tempo por José Saramago) que aborda uma reunião familiar, só mulheres, sendo que umas iam fazendo bordados e uma outra ia lendo o jornal em voz alta, dando informações às restantes. A primeira notícia que ela leu foi sobre a inundação na China em que morreram milhares de pessoas, não despertando em nenhuma delas nenhum tipo de choque; a seguir partilhou com os familiares outras notícias, igualmente, trágicas mas que aconteceram em paragens longínquas e o comportamento é precisamente o mesmo. Por último, há uma pequena notícia que refere que a prima Joaquina caiu e torceu e tornozelo. A notícia despertou, logo, uma onda de emoção em todas as presentes. Isso para dizer que quando ouvimos que 6 milhões de crianças morrem de fome anualmente, percepcionamos essa tragédia como algo abstracto. Todavia, deveria haver uma solidariedade civilizacional em que fosse proibido que alguém morresse a fome. Bono, disse a propósito da actual crise financeira: “ existem 700 mil milhões de dólares para salvar o Wall Street da bancarrota mas não existem 25 mil milhões para salvar 25 mil crianças de morte certa todos os dias, então eu chamo a isso bancarrota moral”. Não poderíamos estar mais de acordo e essa resposta rápida e pujante que os países mais ricos estão a conferir para travar os efeitos desta crise financeira, comprova uma coisa muito simples: que se houvesse vontade genuína dos mais ricos, a pobreza extrema, a falta de comida, o equilíbrio ambiental ou mesmo os objectivos do milénio já estavam resolvidos; A culpa é, inquestionavelmente, dos governos e dos políticos mas, também, da própria sociedade civil (que somos todos nós) que ficamos parados a ver tamanha hipocrisia. Ficamos como as primas da Joaquina, preocupados com coisitas e as que verdadeiramente devem merecer a nossa atenção nem estamos aí.

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