A criminalização dos indocumentados

No outro dia contaram-me uma história que aconteceu na Região, na altura da segunda guerra mundial, portanto, há mais 60 anos que revela dois sentimentos muitos característicos dos humanos e, simultaneamente, contraditórios. São Vicente é a segunda ilha mais importante de Cabo Verde e sempre teve uma forte tradição marítima. Uma fantástica baía e um porto com excelentes condições suportam este rótulo. Esta tradição é também, visível através de centenas velejadores que todos anos atracam na Ilha do Porto Grande, nome pela qual é, igualmente, conhecida. Por outro lado, toda a estrutura social da ilha de S. Vicente foi fortemente influenciada por esta vocação marítima e, em tom de brincadeira, costumamos dizer que todos os habitantes da ilha falam o inglês e que são muitos que dão a volta ao mundo nas várias embarcações que por ai passam.
Na Ilha de Terceira, viveu por mais de 60 anos um senhor que todos os conheciam por “Cabo Verde”. Chegou à ilha, por acaso, num acto de indescritível coragem mas, também, revelador na mesma proporção da crueldade dos seres humanos, pelo menos, de alguns. O senhor “Cabo Verde acompanhado de mais um amigo, viajaram de forma clandestina, num navio grego, que saiu do Porto do Mindelo, em Cabo Verde, com destino à Europa. Estávamos ainda em plena segunda guerra mundial. Durante a viagem, a tripulação encontrou-os escondidos no porão do navio. Sem qualquer misericórdia e um completa ausência de estima pela vida humana, o capitão ordenou que mandasse os dois cabo-verdianos para a borda fora. O barco estava a passar relativamente perto da das ilhas açorianas. O amigo de “ Cabo Verde”, apesar de esforços não conseguiu resistir no alto mar. “ Cabo Verde”, já completamente cansado e o corpo e a não responder a vontade de continuar vivo. De repente, “ Cabo Verde, avistou uma pequena luz e pensou que fosse a morte a chama-lo. A medida que nadava a luz aumentava de brilho. A aproximação da luz deu-lhe força e continuou a encurtar a distância, quando percebeu que a luz era um candeeiro de uma pessoa que estava a pescar, durante a noite, na costa norte da Ilha da Terceira. Assim que se aproximou, o tal pescador deu-lhe as mãos, puxando-lhe para cima das pedras que dividiam o oceano da terra.
O Sr. “Cabo Verde”, nunca mais voltou à ilha do Porto Grande. Casou e constitui família por aqui, deixando descendentes que criaram entre a cultura açoriana a cabo-verdiana. O Sr. “Cabo Verde morreu há pouco mais de dois anos, na mesma ilha que lhe deu e a esperança e que lhe acolheu por mais de 50 anos.
São muitos que não têm a mesma sorte que Sr. “Cabo Verde”; são incontáveis as pessoas que tentam desesperadamente melhores condições de vida, arriscando, inclusive o que têm de mais precioso: a própria vida.
O facto que acabei de relatar não é, infelizmente, ficção e, hoje, esses dramas humanos continuam a ocorrer todos os dias e, muitos dos quais, terminam da pior forma possível.
Como é do conhecimento público, o Parlamento Europeu aprovou, há poucos dias, uma Directiva que, em termos gerais, criminalizar os imigrantes indocumentados no solo europeu. A Directiva da Vergonha pretende, depois de deixar que muitos homens e mulheres contribuam na construção das estradas europeias e que vendam a sua força de trabalho para sectores que muitos desprezam, os expulses e com uma elevada probabilidade de ficarem detidas até 18 meses.
O Presidente Sarkosy disse, poucos dias antes do início da presidência francesa da União Europeia e a propósito do tema da imigração que “ A França, ou a Europa, não vão aceitar toda a miséria do mundo”. A frase até soa bem, mas está repleta de hipocricia.

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