Os equívocos do Presidente com o Dia da Raça




Durante as comemorações do Dia de Portugal e das Comunidades, o Presidente da República, em resposta às perguntas dos jornalistas sobre a greve dos camionistas, falou em Dia da Raça, que era o nome que antes do 25 de Abril se dava ao actual Dia de Portugal, hoje.
Para já, não espero que o Presidente faça sempre afirmações correctas ou que estas devam sempre merecer a nossa concordância. Lá está, nós, os Homens, falhamos e os que exercem cargos públicos têm também os seus momentos de erros e fraquezas e ainda bem que é assim. No entanto, é expectável que quando as pessoas afirmam coisas que não fazem sentido nenhum, sobretudo, quando se exerce um cargo como o do Presidente da República , pelo menos admita o lapso e assunto morre aí e ponto final. Na época em que vivemos, em que há um esforço, em muitos quadrantes da sociedade portuguesa, em construir um novo nós em Portugal assente na diversidade, o mais alto representante do país utiliza o termo “ Raça” num momento completamente despropositado. Pessoalmente e apesar de um esforço de compreensão não percebi, sinceramente, o significado e a razão pela qual o Presidente cometeu tal erro.
De qualquer forma, o que não é correcto é fingir que nada aconteceu e entendo que o PCP e o Bloco de Esquerda estiveram muito bem, ao solicitarem uma explicação do Presidente da República. O PS não disse nada (não se compreende) e à direita já podemos, no entanto, entender a não reacção.
Como o Presidente resolveu ficar em silêncio, vamos lá é avançar as nossas hipóteses. A primeira, quero sinceramente acreditar nisso, é que foi um lapso de memória do Presidente que ainda vive os rescaldos do passado recente português. Se for esta a hipótese, a coisa fica resolvida com a admissão do lapso.
A segunda hipótese é que o Presidente acredita mesmo na Raça. Antes de mais, como o leitor saberá o termo raça já não se usa no meio académico e pensava eu, também, no político. Para além de, cientificamente, o termo “Raça”, não fazer sentido, a difusão do racismo esteve sempre ligado a ideia de raças, relação de superioridade etc. Mas Portugal, é o país europeu que se registou de forma mais intensa o cruzamento de “raças”. Por isso, nem falo da realidade da sociedade portuguesa actual que, inquestionavelmente, está sendo construída nesta diversidade cultural, assente na presença de mais quinhentos mil estrangeiros.
A afirmação do Presidente da República não faz igualmente sentido pelo passado de Portugal. A este propósito, vale a pena ler um livro de um investigador brasileiro, José Ramos Tinhorão, “ Os negros em Portugal: uma presença silenciosa” em que faz uma extraordinária investigação histórica sobre a miscigenação portuguesa, nomeadamente a presença em 1550 em Lisboa de cerca de dez mil negros, representando na altura pouca mais de dez por cento da população. A pergunta que se impõe: para onde foram estes negros? Não foram para lado algum. Misturaram-se, na altura, com os portugueses brancos.
Levando a segunda hipótese ao extremo, ou seja, da existência da Raça, o Presidente poderia dizer no lugar de “Raça”, “Raças”, tendo em conta que não existem somente brancos, negros etc, em Portugal.
Que o Presidente incentive e apele ao reforço da identidade portuguesa, do envolvimento da diáspora no desenvolvimento do país, faz todo o sentido e é desejável que isso aconteça.
Existem, por aí, muitas pontas soltas em relação a estes assuntos de raça, racismo, xenofobia e algumas atitudes segregacionistas. Por isso, a recuperação da expressão “ raça” por parte do Presidente é grave e absolutamente lamentável. As palavras têm o peso que têm e a força de quem as pronuncia, mesmo que não intencionalmente.

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