As eleições em Cabo Verde...comentários

1. Face a existência de um corredor cada vez mais intenso entre Cabo Verde e os Açores, vale a pena partilhar com o leitor os principais acontecimentos sobre as últimas eleições autárquicas realizadas no arquipélago da morabeza.
Acho que a primeira nota prende-se com o nível da abstenção que foi relativamente baixo (na ordem dos 19,76%), em comparação, por exemplo com a situação em Portugal e, em particular, dos Açores. Aliás, tem sido hábito, nos vários momentos eleitorais, uma participação muito intensa da população cabo-verdiana o que poderá ser explicada, em parte, pelo facto de Cabo Verde ter uma democracia muito jovem (a partir de 1991). Mas é, também, uma prova inequívoca do funcionamento e da vitalidade do próprio sistema democrático em que a participação e a liberdade no exercício desta mesma participação constituem indicadores privilegiados.

A segunda nota e, ao contrário das expectativas é a derrota do PAICV nestas eleições, tendo em conta que perdeu os três maiores concelhos do país, nomeadamente Praia, Santa Catarina e S. Vicente. Nessa última, cidade conhecida pelo seu famoso porto e a segunda maior do país, a previsibilidade do vencedor era muito difícil, face aos candidatos que concorrem à presidência daquele município. O PAICV apoiou Onésimo Silveira, antigo presidente daquela autarquia, ex-embaixador em Portugal e indivíduo com grande capital político. Foi o segundo mais votado (30,76%). A surpresa maior em S. Vicente foi o facto de Gualberto do Rosário, antigo primeiro-ministro e apoiado pelo MPD, ter conseguido apenas 2,96%, ficando em última posição no conjunto dos quatro candidatos. Isaura de Carvalho, reafirmou a sua liderança em S. Vicente com 46,02% dos votos.

Na cidade da Praia as coisas foram mais complicadas. Felisberto Vieira, há dois mandados à frente dos destinos da capital e suportado pelo PAICV, perdeu por apenas 559 votos (1,17%) a favor de Ulisses Correia, antigo ministro das Finanças do governo do MPD. O facto é que a derrota do Felisberto Vieira não era de todo previsível e mesmo o MPD estava, na altura da escolha dos candidatos. com muitas dificuldades em encontrar uma pessoa que conseguisse, pelo menos, um bom resultado e que preparasse o partido para os futuros embates eleitorais.

Excesso de confiança do Felisberto Vieira, uma classe média em ascensão e que está a acrescentar um peso cada vez mais considerável no conjunto dos eleitores flutuantes que tende a orientar o seu sentido de voto desprendido dos partidos políticos, são algumas das razões explicativas da derrota do Felisberto Vieira na cidade da Praia.

Em termos gerais, o PAICV ficou com 10 câmaras, menos uma que o MPD. Apesar desta ligeira diferença estatística, pelo facto do PAICV ter perdido sobretudo, a capital, tem uma interpretação e um custo político elevado. De qualquer modo, as eleições legislativas só acontecerão em 2011 e, até lá, muitas coisas poderão acontecer. Todavia, a forma como correu estas eleições confirmam uma vivência recomendável da democracia cabo-verdiana.

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