Àfrica, um continente esquecido?


Tinha 13 anos quando fui, pela primeira vez, à Africa Continental. Todos os lugares têm um cheiro próprio, mas acho que África tem um cheiro mais intenso e que raramente se esquece. Senegal tem esse cheiro fascinante, sobretudo, a capital, Dakar, que num misto de ordem e desordem é uma cidade fantástica. O país mais próximo das ilhas cabo-verdianas e que, hoje, é local é um dos locais de partida de milhares de jovens que, em jangadas de escassos metros, tentam alcançar o sonho europeu. As migrações forçadas, concretizadas num clima de desespero é um dos sintomas da gravidade da situação africana e do próprio desequilibro mundial.
No próximo domingo, 24, é celebrado o Dia da África, instituído pelas Nações Unidas em 1963, como símbolo de combate dos países africanos na luta pela autodeterminação. Foram muitos os que lutaram pela independência e acreditaram nela, na convicção de que seria possível construir uma África dona do seu próprio destino e, essencialmente, uma África onde as suas populações pudessem viver em paz e com dignidade. Hoje, são raros os países que conseguiram tais objectivos.

A autodeterminação, pelo menos nos moldes em que a conhecemos, já foi conseguida e, hoje, os desafios são diferentes e exigem uma outra atenção, nomeadamente das próprias lideranças africanas, e este é o primeiro aspecto.

Não partilho e nem me revejo numa atitude apática e de vitimação do continente africano face ao resto do mundo. A batalha do desenvolvimento e da paz social e política tem de ser conseguida pelos próprios africanos. Isso não quer dizer, no entanto, que os países mais ricos, nomeadamente, os Estados Unidos e a Europa, não devem assumir as suas respectivas responsabilidades na desgraça africana. Se quisermos, até por uma questão de egoísmo dos países mais ricos, diria que uma África fraca, desgraçada e excluída do processo de desenvolvimento global é muito mau para todos, já que estamos a falar num mundo que é cada vez mais plano. Neste quadro, é necessário um outro relacionamento com os países africanos, assente na cooperação genuína e consequente e na assunção dos compromissos assumidos. Em relação a este aspecto os dados relativamente à Ajuda Pública ao Desenvolvimento divulgados em Abril, pela OCDE, revelaram que houve uma descida substancial de 8,4% em termos reais, passando de 0.31% do Rendimento Nacional Bruto, em 2006, para 0.28%, em 2007. Este é um exemplo de que há muita conversa e pouca acção em torno do desenvolvimento africano, nomeadamente na ajuda dos países mais ricos.
Para muitas pessoas falar da África é hoje coisa exótica e, simultaneamente, fastidiosa. O primeiro argumento é facilmente compreensível. Em relação ao segundo, a interrogação que as pessoas, geralmente, fazem é esta: como é que num continente tão rico, uma percentagem significativa da população vive na mais absoluta miséria, enquanto os seus dirigentes vivem diariamente na mais completa ostentação de riqueza. A pergunta é muito simples, de facto, mas está aí um dos problemas.

A crise alimentar está a atingir de forma brutal as populações africanas e ainda ontem, o Director Geral da UNESCO alertou que esta será um dos problemas mais sérios que o continente terá pela frente nos próximos tempos. A questão da corrupção, da estabilidade política e paz social, as contradições da cooperação internacional, travam todos os dias o processo de desenvolvimento africano, ficando o continente na curva e contracurva do sistema mundial. Até quando?
Para complicar, a África do Sul acordou no início da semana com cenas horríveis de violência xenófoba. É um verdadeiro escândalo que só vem comprometer o próprio continente, lá dentro e cá fora.

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