Fome à espreita



Muitos conhecem “ sodade”, uma das músicas mais emblemáticas de Cabo Verde e interpretada magistralmente pela Cesária Évora. A música, para além de abordar a saudade e as vicissitudes das migrações, retrata um dos períodos mais difíceis do arquipélago cabo-verdiano.

Em 1947, o país viveu uma das piores secas na sua história, período em que o mundo acabara de viver a II Guerra Mundial. Na mesma altura, o edifício que servia para o armazenamento de comida veio abaixo, matando centenas de pessoas que aí se encontravam à procura de alimentação. Na conjugação destes factores, alguns milhares de pessoas morreram à fome em Cabo Verde e, para muitos, a solução foi a emigração para São Tomé e Príncipe. No entanto, na época o trabalho escravo já tinha sido abolido e para que Portugal pudesse manter o nível de produção agrícola na então colónia aproveitou-se a dramática situação que se vivia em Cabo Verde para resolver o problema de falta de mão-de-obra. São muitos os historiadores que advogam que o que se passou no arquipélago de São Tomé era uma escravatura encoberta. Esta discussão dava para um outro artigo, mas o certo é que é preferível ser escravo a morrer à fome, por muito que isso possa nos custar.
Por isso, a música da Sodade, para além de estar imbuído de um som nostálgico e a aparentemente doce para quem a escuta, carrega o terrível drama que é a fome; acordar sem nada para comer e dormir, também, sem absolutamente nada barriga. A minha avó, que é da Ilha do Fogo, foi viver nesta altura para a cidade da Praia e ela contava que via crianças a morrerem porque não tinham nada para comer.
Este pequeno recuo ao passado tem a ver a escassez de alimentos e a subida galopante do preço dos cereais que faz com que a fome se agudize nos países mais pobres e que fique à espreita nos países de desenvolvimento médio e nas populações mais vulneráveis dos países mais ricos.
A ONU refere que a falta de investimento no sector agrícola, os subsídios da Europa e Estados Unidos à agricultura que subvertem o lógica do comércio, os subsídios aos biocombustíveis, as alterações climáticas e a degradação ambiental constituem as principais causas para a escassez de alimentos que está a preocupar a comunidade internacional.
Mas, também, há quem subscreva a tese de que a escassez dos alimentos tem muito a ver com o aumento da população mundial (ou seja da procura), sobretudo, da China e da Índia, em que à medida que as suas populações têm mais poder de compra alteram a sua dieta alimentar.

Um relatório recentemente publicado pela Agência da Biodiversidade da ONU diz que a convulsões sociais e a deterioração ambiental dependem de uma mudança radical da agricultura moderna, lembrando que os benefícios são ainda distribuídos de modo desigual, "a um preço cada vez mais intolerável, pago por agricultores de pequena escala, trabalhadores, comunidades rurais e meio ambiente".

É claro que todos nós ficamos preocupados com a possibilidade de escassez de alimentos e a primeira coisa que me veio à cabeça é ir até ao supermercado e comprar toneladas de comida para armazenar de seguida. Porém, depois do Ministro de Agricultura ter dito textualmente que os portugueses não serão afectados com o problema da fome e da escassez de cereais dormi, naquele dia, relativamente mais tranquilo. Claro que acordei, no dia seguinte mais preocupado e depois do leitor ter lido este artigo algumas dezenas de crianças, algures em África, já morreram porque não têm comida e algumas pessoas tendem a ver a fome como um fenómeno exótico.
Esta crise poderá ter a vantagem de fazer com que os países, sobretudo, os mais ricos, possam alterar as suas políticas e potenciar uma melhor redistribuição da riqueza. Será que sim...Mais como se diz no ditado popular... a corda arrebenta sempre para o lado mais fraco.

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