Um preto ou uma mulher na Casa Branca?

Confesso que não percebo quase nada do complexo sistema eleitoral norte-americano. Só sei que, mesmo acompanhando unicamente pela comunicação social e conversas de café, as eleições nas terras do Tio Sam deixam-me excitado. Faz-me lembrar uma partida de futebol americano em que não percebo nada, aquilo parece uma confusão tremenda, mas sei qual é o objectivo final do jogo e, por isso, vejo com particular atenção uma partida desta modalidade e aí as coisa tornam-se mesmo aliciantes para ser acompanhadas. Em relação às eleições presidenciais nos Estados Unidos, sinto exactamente a mesma coisa.

Apesar deste relativo desconhecimento, confesso que, se votasse, o meu voto iria para Barack Obama; não por ele ser preto, mas pela mensagem de esperança e de mudança em que a sua candidatura assenta. Portanto, aqui não há nenhuma solidariedade com base na cor da pele, apesar de muitos tenderem a ver o eleitorado das minorias como menos preparados em que a malta vota no primeiro candidato que lhe põem sua frente, desde que seja um deles.

Claro que se não fosse o passado histórico das nossas sociedades, terrivelmente trágico em alguns aspectos, ter um candidato preto ou mulher era completamente indiferente e algo que não mereceria os nossos comentários. Mas a História foi o que foi e muitas das nossas vivências culturais actuais resultam, naturalmente, do nosso passado. A escravatura, por exemplo, foi aceite e difundida em vários espaços, tendo na sua uma base a aceitação da crença da superioridade do homem branco. A partir de 1948 a África Sul, que hoje é uma das potências emergentes no continente africano, viveu sob o regime de apartheid, até 1990. Portanto, foi ainda há 18 anos que o mundo sabia da existência de um país em que havia escolas para brancos e para pretos; autocarros para os mais claros e para os mais escuros; os pretos não podiam votar, com base na crença da inferioridade de uma pessoa em função da cor da pele. Numa conferência a que tive a oportunidade de assistir recentemente, contava um senhor natural da África do Sul que viu a irmã falecer porque a ambulância que supostamente deveria prestar-lhe socorro só transportava brancos. Estas coisas aconteceram, portanto, há bem pouco tempo e ainda bem que fazem parte da História colectiva.

De qualquer modo, e apesar dos progressos alcançados, o racismo está ainda hoje presente, de forma mais subtil, é certo, sendo resultado desta crença de que a cor dos indivíduos determina a sua função e hierarquia social.

Mas, também, há o lado trágico na discriminação das mulheres que, não obstante os passos positivos e dados no sentido de construímos uma sociedade igualitária no acesso às oportunidades, ainda têm um longo caminho a percorrer. O direito de voto às mulheres só foi reconhecido também há relativamente pouco tempo, assente na convicção de que o lugar das mulheres era em casa, procriando e a tomar conta do marido. Em Portugal, por exemplo, somente em 1931 foi reconhecido formalmente o direito de voto das mulheres.
Por isso, a candidatura dos dois democratas à Presidência da principal potência do mundo está carregada deste simbolismo e uma mensagem de ruptura com os preconceitos que tanta ferida e dor causou aos nossos antepassados, cujas consequências perduram até hoje.
Existe uma probabilidade muito grande de a maior potência do mundo vir a ser presidida por um preto ou por uma mulher. Se vivêssemos num outro planeta, a cor e o sexo seriam meras características sem nenhuma importância. Mas como vivemos num planeta chamada Terra em que a nossa vivência é fortemente influenciada por preconceitos, a eleição do Obama, mais do que a Clinton, na minha perspectiva, é uma forte mensagem de esperança e de transformação.

www.ponteinsular.blogspot.com

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Cabo Verde, um percurso de esperança

Slow Ferry e o enguiço do Estado

Fine coliving in the Azores