Cabo Verde… está mais perto

Nasci e cresci no bairro da Várzea, típico subúrbio da cidade praia, capital cabo-verdiana. Aqui nos Açores, ou melhor, em S. Miguel temos uma localidade com o mesmo nome: Várzea. A vivência insular, a contradição do querer partir mas ter ficar, o sentimento das ilhas que nos aflige pelo seu implícito carácter limitativo e, ao mesmo tempo, o vasto oceano que nos transporta para o outro lado do mundo; o sentir a ilha invisível que só os poetas conseguem sentir e reproduzir. Ainda ontem, Manuel Alegre, apropriou-se de forma fantástica, dessas contradições angustiantes e saborosas da identidade dos ilhéus.

Estava eu a dizer que em Cabo Verde temos uma zona que se chama Várzea e que aqui nos Açores existe uma localidade com o mesmo nome. Até nos nomes; nos nomes do lugares e dos não lugares, temos a evidência destes pontos de contacto entre os Açores e Cabo Verde. Podemos pensar, maldosamente, que os descobridores estavam exaustos e nada imaginativos aquando da descoberta ou “achamento”, como alguns historiadores tendem a ver História dos dois arquipélagos. Independentemente das razões destas coincidências, prefiro concentrar-me, presentemente, nelas. Achadinha, Ribeira Grande, Povoação, são outros dos nomes comuns que me passam pela cabeça.

É neste quadro que, para além do aspecto emotivo, das condições históricas e culturais e sociais que servem de base a este relacionamento, não podemos ignorar, também, a existência de um conjunto de razões muito práticas como determinantes desta maior aproximação. Sempre acreditei nas potencialidades dum relacionamento mais intenso e consequente entre os Açores e Cabo Verde, explicado, não só pelas muitas afinidades e cumplicidades existentes, mas também pela actual realidade do nosso mundo, que exige parcerias cada vez mais sólidas entre espaços e regiões. Relacionar com aquele que nos é mais próximo é muito mais fácil e de longe mais consequente.

A Europa precisa de voltar-se para o Sul, no sentido de contribuir, por um lado, para uma maior estabilidade política e na pacificação do Continente africano e, por outro, no fomento do desenvolvimento dos países mais pobres no mundo que estão situados, na sua maioria, no continente africano. Face ao mundo cada vez mais global e onde prevalecem interdependências entre países e regiões cada vez mais intensas, as migrações irregulares já entraram na agenda política europeia. É sabido que uma das causas explicativas das migrações irregulares é a crescente discrepância em termos de desenvolvimento entre os países, sendo que o caminho mais consequente para resolução deste problema é uma melhor atenção da Europa para com o continente africano. Os Açores e Cabo Verde podem contribuir para a existência desta ponte de diálogo entre o Norte e o Sul.
Cabo Verde está a evoluir. Apesar da crónica falta de água e da aridez do solo, todos os dados apontam para um Cabo Verde em desenvolvimento e com uma democracia estável e segura. Apesar desse desenvolvimento, importa fazer esforços gigantescos no sentido de democratiza-lo, ou seja, que a maior parte das pessoas possa sentir esse mesmo desenvolvimento.
Os Açores cresceram muito nos últimos anos e, hoje, constitui um espaço de oportunidade para uma vida francamente melhor e a existência de um número significativo de imigrantes, é um indicador real deste mesmo desenvolvimento.
Porém, só afinidades e cumplicidades não chegam para um relacionamento consequente. A nível empresarial, por exemplo, é importante a existência de ligações marítimas regulares, no sentido de permitir a exportação de produtos lácteos dos Açores para Cabo Verde. Estamos a falar de um mercado de aproximadamente 470 mil habitantes que pode ter alguma importância para o tecido empresarial regional.
Seria um começo mas acho que nesses últimos dois anos, os Açores e Cabo Verde estão mais próximos. Estamos, pois, a dar sentido prático a um destino histórico das ilhas atlânticas.

Comentários

M.C disse…
Ter Cabo Verde "mesmo aqui à porta" seria magnífico !!!


Já lá estive e pretendo voltar.


Saudações

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