A lei dos mais fortes...Conhecem um tal Abreu Freire?

Há algo que, por mais que nos custe acreditar e mais volte que possamos dar, constitui uma verdade incontornável: a existência dos mais fracos e dos mais fortes e, quando a corda rebenta, lixam-se, regra geral, os primeiros. Muito por causa das minhas andanças no mundo associativo e, em particular, relacionado com as migrações, esta teoria da corda rebentar pelo mais fraco é uma constante. Diria, aliás, dramaticamente constante.
Atracou há dias na Marina de Ponta Delgada um veleiro comandado por um senhor de nome Abreu Freire (segundo o seu relato pessoal é professor na Universidade de Aveiro), inserido numa expedição em homenagem aos 400 anos de nascimento do Pe António Vieira. A ideia é navegar pelos mesmos espaços percorridos pelo Pe. Antonio Vieira na Europa, África e Brasil, o que, de resto, constitui uma justa homenagem, por tudo aquilo que este missionário representa e representou para a nossa memória colectiva. O projecto teve uma ampla divulgação mediática nos portos onde atracou.
No entanto, na passada segunda feira, dois cidadãos brasileiros (um senhor de 45 anos e um jovem de 21 anos) estavam à minha frente no Centro Local de Apoio aos Imigrantes com uma história que nos deveria envergonhar enquanto seres humanos. Ninguém tem o direito de brincar com a vida do seu semelhante.
O tal senhor, que se intitula professor doutor, trouxe com ele, na sua embarcação, os dois cidadãos brasileiros, pescadores na Amazónia, em Belém, a capital do estado brasileiro do Pará. Convidou-os a trabalhar com ele na embarcação durante a viagem, dizendo-lhes que iriam receber uma compensação financeira e roupas. O tal senhor comprometeu-se a pagar-lhes a viagem de regresso ao Brasil.
A viagem, ao contrário dos 20 dias inicialmente previstos, demorou quase 4 meses. Depois de terem atracado na Marina de Ponta Delgada o Sr. Freire Abreu disse, no entanto, aos dois brasileiros que não lhes devia absolutamente nada.
Claro que os brasileiros ficaram chocados com a notícia, sobretudo depois de terem trabalhado durante 4 meses, e com família para sustentar no Brasil. Quatro meses a andar no Atlântico de borla, enquanto a família ia tomar fiado na mercearia local.
O desespero tomou conta do mais velho e, por ironia do acaso, uma pessoa que faz parte da Associação viu o homem a chorar sozinho na Marina. Foi falar com ele e ficou a saber da história que estou a partilhar com o leitor hoje.
Como seria de esperar, fomos falar com o tal Abreu Freire no sentido de ouvir a sua versão e tentar ajudar, dentro das nossas possibilidades, os dois cidadãos.
Quando lá chegamos o senhor nem nos queria ver à sua frente e intercalando gesto obscenos com argumentos do tipo “os dois vieram por que quiseram;” e “eu não prometi nada a ninguém”, o diálogo foi impossível.
Aqui temos vários problemas:
O primeiro é de carácter moral e mais grave ainda de alguém que está a fazer um projecto em torno de uma figura como o Pe António Vieira em que, pelo seu percurso, a intrujice não teve e nem teria lugar. Sabemos como as coisas funcionam: o homem foi lá com o seu iate, iludindo as pessoas mais modestas, dizendo que as trazia para a Europa, arranjava-lhes trabalho e ,ainda por cima, dava-lhes alguns euros. São repugnantes estas histórias e, por mais que aconteçam, esses trapaceiros andam por aí.
Em segundo lugar, estamos perante uma situação jurídica. Apesar de o contrato verbal ser válido à luz do direito laboral, estamos a falar da palavra de dois tipos, dois pescadores no rio de Amazónia contra a palavra de um indivíduo possivelmente com o grau de professor doutor. Dificilmente acreditaríamos nos dois brasileiros, não é?
Em terceiro lugar está em causa a própria promoção de migração ilegal. É inadmissível tolerar casos em se que promete de forma leviana e gratuita o emprego, quando sabemos que as coisas não funcionam desta forma.
Esta é uma situação atípica e com contornos jurídicos possivelmente complexos. De qualquer modo, não podemos deixar passar em branco essas situações. Na pior das hipóteses devemos dar o benefício da dúvida e procurarmos a verdade.
Mas, enquanto isso não acontece, teremos muitos Abreus Freire por ai, uns de carro, outros de barco e que, de vez em quando, vão passando aqui por nós.
Cá entre nós: A Pe António Vieira é que não gostaria nada de ouvir esta história..


Comentários
Meu nome é Deize e sou brasileira da cidade de São Paulo.
Sou produtora e, ha uns 5 anos, esse senhor Antonio Abreu Freire nos procurou para ajuda-lo a montar o projeto para as gravações de sua expedição em um veleiro que iria percorrer os passos de Pde Antonio Vieira no Brasil.
Bem, este senhor se meteu em um escandalo aqui no Brasil e desapareceu, e é claro, com o nosso projeto de pesquisa e levantamento.
Gostaria muito de saber o que aconteceu com os brasileiros que ele abandonou em outro país. Você tem notícias do que aconteceu com eles ?
Pela descrição devem ser ribeirinhos do Rio Amazonas e, é claro, acreditaram e tiveram boa fé para partir com esse senhor em sua empreitada.
Aqui no Brasil é crime e é chamado de tráfego ilegal de pessoas.
Se tiver informações do que aconteceu com eles me mande informações
http://www.acorianooriental.pt/noticias/view/172222
http://www.vieira400anos.com.br/cruzeirohistorico.html
http://dn.sapo.pt/2008/06/24/artes/relancamento_portugalia_editora.html
http://timeout.sapo.pt/news.asp?id_news=1909
Paulo Mendes
Não se pode acusar ou manchar a reputação de uma pessoa sem provas er só baseado em aparências ou interpretações pessoais. O famoso escritor lusófono António Abreu Freire, muito amigo do Brasil, deve sofrer ataques gratuitos por invejosos e despeitados, usando até de má fé Assim, as referências e dois marujos brasileiros inominados e sem fotos nem depoimentos próprias são o que em Direito Universal constitui "Denúncia Vazia" e é feita com irresponsabilidade por pessoa intencionada em se promover como defensor de minorias. A Internet, infelizmente, está cheia disso.