"A Guerra” e os complexos do passado colonial

O programa “ A Guerra “ que está a ser exibido no RTP, independentemente de uma ou outra crítica feita, nomeadamente a contextualização de alguns factos relatados, tem cumprido na íntegra sua função, que é ajudar todos a conviver com os nossos fantasmas e aceitar o passado. Mas também, e face à elevada audiência que a “ Guerra” vai tendo, ficamos afinal com a crença de que é possível conjugar audiência com a qualidade. “A Guerra” vem dizer-nos que há outras coisas, sem ser futebol e os reality show, que podem ser transmitidas pela televisão em horas decentes e que muitas pessoas vêem.Apesar de ter nascido depois da guerra colonial confesso que cresci, e como eu certamente muitas outras pessoas da minha geração, com o fantasma do passado colonial. Naquelas histórias que se contam ao cair da noite, lembro-me como eram reproduzidas, por pessoas que viveram o tempo colonial, histórias macabras perpetradas pelos colonialistas; das polícias que perseguiam as pessoas e, atentas a qualquer conversa de esquina que colocasse em causa o colonialismo, mandavam-nas prender. Cresci, e só mais tarde vim a saber que quem fazia esse papel era a PIDE. Entretanto, e como havia os colonizados, era inevitável que do lado de lá tivéssemos os nossos próprios protagonistas, em que as próprias histórias eram partilhadas nos tais encontros do cair da noite. Em Cabo Verde e Guiné-Bissau qualquer pessoa da minha geração tem uma perspectiva quase que inatingível do Amílcar Cabral, o pai da nacionalidade daqueles dois países lusófonos. Lembro-me de que, a certa altura e no meio dessa história, contaram-me que durante a guerra Cabral fora visitar de madrugada a mãe que se encontrava doente na ilha do Fogo; chegara à ilha de helicóptero, durante a madrugada, para que não pudesse ser preso pelas autoridades coloniais. Todos queriam ser continuadores de Cabral e noutros países africanos, nomes como Agostinho Neto e outros menos conhecidos fazem parte da memória colectiva, enquanto heróis que lutaram pela liberdade do seu povo. Nessa atmosfera e como os colonialistas eram os portugueses a idealização do português recai muito sobre essas histórias e factos passados.Mas, como qualquer guerra, tem sempre a outra parte, temos também as percepções dos portugueses: alguns milhares de pessoas que residiam nas ex-colónias e fizeram aí toda a sua vida tiveram de voltar para Portugal; muitos deles despedaçados por amarem tanto quanto eu aquelas terras; outras, e (penso que é a minoria), tristes porque toda aquela criadagem e os privilégios iriam desaparecer. A acrescentar a essas pessoas não podemos esquecer os que fizeram a guerra, de milhares de jovens (entre os quais muitos açorianos) que em nome da pátria portuguesa foram para as terras africanas matar, enquanto Salazar meditava em Lisboa sobre a melhor forma de garantir o império.Já lá vão pouco mais de 30 anos. Hoje, os países estão livres, uns piores outros melhores. Todavia, todos livres. Se os nossos heróis viessem cá dar uma espreitadela ficariam tristes com o estado de alguma dessas sociedades, para os quais deram a vida, em nome da liberdade, mas também em nome do desenvolvimento económico. Salazar também já morreu. Portugal quer hoje construir uma relação sólida e horizontal com os seus pares lusófonos africanos e a CPLP é, porventura, com todos os seus defeitos, o projecto que melhor espelha essa vontade. Apesar disso, o facto é que todo o potencial desse relacionamento é minado, em inúmeras ocasiões, pelos fantasmas do passado colonial. Portugal fica muitas vezes na retaguarda com receio de ser acusado de alguma tendência neocolonialista e os nossos países africanos com cinco pedras nas mãos porque não querem que a História se repita.Por isso é importante que a História seja contada, tal como é ela, ouvindo ambas as partes para que finalmente possamos conviver razoavelmente bem com os nossos fantasmas. A “Guerra”, o programa, tem esse mérito. A outra guerra não teve mérito algum.

Comentários

Anónimo disse…
Até que enfim que encontro alguém na minha condição insular - Açores/Cabo Verde. Quando tiver oportunidade venha ao nosso restaurante aqui na Praia bafar uns petiscos e dois dedos de conversa. Há muito em que falar sobre Cabo Verde!
Abraço.
http://bommar-casanova.blogspot.com

Sérgio
Anónimo disse…
Gostaria que Borack Obama ganhasse as eleições no E.U.A porque é jovem e inteligente e trasmite uma boa mensage aos povo do Mundo, si ele ganhar, a Economia do E.U.A vai melhorar e nós os Caboverdiano so temos a ganhar com isso, dado que sempre tivemos uma boa relação com esse País

Mensagens populares deste blogue

Cabo Verde, um percurso de esperança

Slow Ferry e o enguiço do Estado

Fine coliving in the Azores