As Energias Renováveis em Cabo Verde


Cabo Verde está a passar por um bom momento em praticamente todas as esferas. Hoje, existe uma maior democratização no acesso ao ensino, a saúde melhorou consideravelmente, a nossa vivência democrática com todas as consequências positivas que daí podem advir tem sido aplaudida por agentes internacionais, o Estado funciona razoavelmente bem, etc.

No entanto, essas conquistas não nos podem deixar cair em basofarias, não nos permitindo, por consequência, encarar de forma séria e frontal os complexos e difíceis desafios que temos pela frente: uma delas é a democratização do desenvolvimento, ou seja, a necessidade de fazer com que o crescimento de riqueza tenha um impacto real na vida de todos os cidadãos. O perigo (outras realidades estão ao lado) é que em processos de desenvolvimento descuidados, só meia dúzia de indivíduos tendem a apanhar o comboio, e o esforço de estender esse desenvolvimento a todos é qualquer coisa de imprescindível. Um outro desafio central é a questão das energias renováveis em Cabo Verde.
Há um consenso político quanto à necessidade de implementarmos em Cabo Verde, e de forma gradual, a utilização de energias renováveis, permitindo, por consequência, a diminuição da nossa dependência externa em combustíveis fósseis, que até o momento tem sido a base do nosso sistema energético (cerca de 95%). Por outro lado, esse mesmo consenso é feito na convicção de que uma maior atenção às energias renováveis diminui a exposição da frágil economia cabo-verdiana aos choques externos, bem como nos ajuda a posicionarmo-nos convenientemente no contexto internacional em matéria de políticas activas na preservação do meio ambiente.
No entanto, e apesar de condições excelentes que o país apresenta no campo de energias renováveis, em especial a eólica e a solar, o facto é que a realidade das nossas ilhas nos diz que a introdução e, em alguns casos, o reforço de energias renováveis em Cabo Verde só tem feito parte do discurso político.
A ampliação da dependência dos combustíveis e o aumento do preço do petróleo são uma realidade e, em contraposição, existe um potencial real em Cabo Verde em energias renováveis que é subaproveitado. Sei que temos alguns projectos de energias renováveis em Cabo Verde, muito deles estão inactivos ou funcionam de forma drasticamente ineficiente e não quero ser, de modo, algum simplista nessa questão.
No campo internacional, hoje, todos os países estão desesperadamente a implementar projectos no sentido de criar condições para o aumento da rede de energias renováveis onde, para além da óbvia questão ambiental associada, está, igualmente, a questão económica, através da redução da dependência do petróleo. Os Açores têm uma experiência muito interessante em matéria de energias renováveis e, actualmente, as centrais geotérmica, hídricas e eólicas representam mais de 30% da produção eléctrica do arquipélago.
Por outro lado, o investimento inicial nas energias renováveis é gigantesco e penso que reside aí um dos nossos problemas. De qualquer modo, essa chamada de atenção não se relaciona com uma moda internacional. É algo estratégico e em que o futuro de muitos países se joga nesse tabuleiro.
Tive acesso a alguns dados que sustentam que a energia solar e eólica em Cabo Verde é viável. Inclusive no acordo celebrado com a Electra (que de resto tem sido a nossa desgraça) foi salvaguardada a necessidade de essa empresa no futuro criar as condições para a implementação de parques de energias renováveis em Cabo Verde. Mesmo com o diesel, a Electra não dá conta do recado, não sei se valerá a pena falar nas renováveis nas actuais circunstâncias dessa empresa. Duas notas finais:
É urgente conhecermos cientificamente as potencialidades de Cabo Verde em matéria de energia renovável, permitindo perceber, para além das vantagens ambientais, os benefícios económicos. Se esse estudo já está feito, é urgentíssima a criação de condições para começarmos a diminuir a nossa dependência dos combustíveis.
Por isso, li recentemente e, confesso, com muita apreensão, a entrevista do Ministro da Economia, onde disse que o Governo está a estudar a hipótese de instalação na Ilha de Santiago de uma mini-central nuclear. Salvaguardando as questões técnicas que o assunto merece, num país como o nosso, com um grande potencial para a utilização das energias renováveis, não é razoável que nos concentremos em alternativas que tenham por base a energia nuclear.

Comentários

Ana Cristina disse…
Artigo muito bem escrito com excelentes argumentos, será que podes divulgar a tua fonte?

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