De cor, preto, negro, pela escura…?



1. De certeza que são muitas as pessoas que ficam na dúvida sobre a forma politicamente correcta de chamar alguém que é negro, preto, de cor, de pela escura, mulato etc. Da parte que me cabe, excluo, desde logo o termo de “cor”. “De cor” soa-me a arco-íris e acho, francamente, o termo ridículo. A par disso, estou a borrifar-me sobre os termos.
Vamos aos factos: no backoffice, a generalidade das pessoas, quando querem referir-se a uma pessoa negra dizem “ aquele preto”. Claro, que existem muitas pessoas que dizem isso com a tal carga negativa e outras nem por isso e, por conseguinte, é sempre complicado generalizar. O divertido disso tudo é que frontalmente, é negro, de cor, pele escura, mulato e por detrás, todos vão dar ao mesmo: preto.
No outro dia contaram-me uma história extraordinária, simultaneamente aflitiva, e não é ficção, pois, aconteceu algures na nossa região.
Um médico confidenciou a uma paciente, durante uma consulta (num daqueles momentos de quebra do gelo), que não gostava de misturas; os brancos de um lado e os pretos do outro. Não se considerava racista, mas que essa história da mistura não fazia sentido. A conversa continuou, dizendo que até tinha amigos na faculdade que eram de cor; inclusive que iam jantar com alguma frequência, mas que ficava enjoado quando via os seus “amigos” pretos a comerem, com aquelas mãos pretas, as azeitonas pretas. Continua o médico, na casa dos sessenta, que as palmas das mãos pretas pareciam sujas e não lhe parecia bem que os pretos comessem as azeitonas (pretas) com as mãos.
Depois do desabafo do médico, a consulta continuou normalmente e, no final, ele percebeu que a paciente era casada com um preto, de mãos pretas e que, de quando em vez, intercala as entradas entre as azeitonas pretas e verdes.
Essas coisas de preconceito, racismo ( entre outros fenómenos) estão ainda enraizadas em muitas pessoas e não têm, necessariamente, uma relação sempre directa com a formação das pessoas. A formação faz com que essas manifestações tenham outra forma de expressão, mas o conteúdo está lá. Há muito boa gente com formação grande e cabeça pequenina.
Quem está a ler esta crónica pode dizer que é parolo abordar o tema desta forma. Para dizer a verdade, acho que o tema é bem parolo. No entanto, e como essas parolices acontecem na realidade e com mais frequência de que possamos imaginar, a eventual parolice do meu artigo é perfeitamente desculpável. Confesso, aliás, que as crónicas têm o dever de reproduzir as grosserias da vida quotidiana, com a vantagem de contribuirem para a nossa reflexão ou algo semelhante.
A sociedade portuguesa é mais diversificada do que muitas pessoas imaginam e só não se tem uma maior percepção dela porque ainda existem grandes filtros invisíveis que impedem que esta diversidade seja mais clara.
Todos nós vibrámos, no outro dia, com a conquista da medalha de ouro por parte do Nelson Évora cuja história deverá fazer-nos pensar. Ele nasceu na Costa de Marfim, os pais são cabo-verdianos e veio para Portugal aos cinco anos e só aos 18 anos teve a cidadania portuguesa. Imagino que se alguém se lembrasse de complicar a atribuição da nacionalidade, hoje Portugal tinha, seguramente, menos uma medalha.
A história deste jovem atleta português portador de outras pertenças deverá servir-nos de referência na construção de uma sociedade longe da intolerância e de atitudes parolas que ainda caracterizam, infelizmente, a forma de ver o outro.
De qualquer modo, a resposta ao título do artigo é o óbvio. No lugar de “aquele preto”, que tal substitui por “aquele senhor” ou mesmo “aquele estúpido” (se for o caso)?
PS. Sugiro ao médico, particular a leitura de "As mãos dos pretos", do Luís Bernardo Honowana (Moçambique), no livro Nós Matámos o Cão Tinhoso, publicado ainda antes do 25 de Abril.

Comentários

Euzinha disse…
Oh meu lindo, tenho uma vaga ideia de te tido esta conversa contigo há 7 anos atrás... Para mim é preto e branco...No meio há os mulatos... E o bom de tudo isto é que quando nos misturamos sai boa comida, boa música, boa dança, gente bonita (uns mais que outros, claro)... A diversidade de cor, cultural, ideológica, seja ela qual for, só traz beneficios! Digo eu, que não percebo muito disto!
A verdade é que quando as posições se inverteram, preferi mil vezes que dizessem "aquela branca", que "aquela gringa", por exemplo. Excelente mesmo, é quando essa referência nem é feita, e somos quem somos, independentemente da cor da pele ;)
Beijos, continuação de um bom blog!

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